• Correia da Fonseca

Nos bicos dos pés

Para participar no Festival da Canção caseiro que haveria de vencer, e porventura ainda por outras motivações, Cláudia Pascoal pintou os seus cabelos de cor-de-rosa. Para servir episodicamente como ponta-de-lança publicitária da própria RTP, o «Prós e Contras», cuja vocação óbvia é a abordagem de questões nacionais em tendencial discussão polémica (de onde o próprio título do programa), surgiu na passada segunda-feira como promotor publicitário da própria RTP como organizadora do Eurofestival de 2018. Para essa deriva em relação à sua vocação assumida não lhe faltou justificação: a realização do Eurofestival implica ganhos e vantagens para o País que aliás foram abundantemente descritos durante o programa, desde a oportunidade para promoção de Portugal aos olhos do mundo até à intensificação do afluxo turístico que aliás já está na situação de «boom», como é sabido. De caminho, o programa incorreu no aliás compreensível pecado de fazer o elogio em boca própria, o que consta ser vilipêndio, mas há que perdoar-lhe a queda em tentação atendendo à excepcionalidade do momento. Não tivesse a RTP pecados maiores no seu cadastro e decerto lhe estaria assegurado um bom lugar no imaginário paraíso das operadoras de televisão.

Os proveitos e as ausências

O ponto central da questão situa-se no facto de o Eurofestival, do qual o Festival doméstico é fase preliminar, não ser nada de importante, nem sequer para a indústria e comércio discográficos que em princípio deveria servir. A desde sempre remota hipótese de ser instrumento para a divulgação do melhor cançonetismo europeu nunca aconteceu, antes pelo contrário, como sempre se confirmou perante a verdadeiramente escandalosa hegemonia das palavras em língua inglesa e perante o modelo musical sempre dominado pela influência anglo-saxónica. Aliás, a transformação de uma competição entre canções numa sucessão de espectáculos de impacto audiovisual supostamente forte conduziu cedo a uma perversão do Eurofestival e, quanto a isto, a mais positiva contribuição para todos esses festivais terá sido dada pelo português Salvador Sobral ao lembrar que canção não é fogo-de-artifício. Mas as sensatas palavras de Sobral não seriam as mais adequadamente lembradas neste «Prós e Contras» onde a RTP implicitamente se vangloriou de estar à altura da transmissão de quaisquer pirotecnias. Para isso, alçou-se nos bicos dos pés, para usar aqui uma fórmula popular, e o facto é que a RTP já deu frequentes provas de estar tecnicamente à altura de acontecimentos diversos e difíceis, assim ela o estivesse sempre noutras matérias fundamentais. Resta esperar que os proveitos de diversa ordem que neste «Prós e Contras» foram enumerados e previstos se confirmem neste Eurofestival. Na antecipada certeza de que os de natureza musical mais uma vez estarão tendencialmente ausentes.




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