- Edição Nº2306  -  8-2-2018

Síria: o valor da resistência de um povo

GUERRA Quase a cumprirem-se sete anos depois do início da agressão, a Síria encontra-se à beira de poder virar a página de um conflito manipulado sob o patrocínio e presença directa no terreno do imperialismo e onde persistem interesses contraditórios.

LUSA

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O diálogo realizado por estes dias em Sochi, na Federação Russa, sob os auspícios do país anfitrião e principal aliado da Síria, do Irão e da Turquia, pode ser o corolário de uma rearrumação de forças em desenvolvimento, pese a ausência de grande parte da chamada oposição. Particularmente das milícias curdas que, nos últimos meses, apoiadas pelos EUA e aliadas conjunturais dos restos do chamado Exército Sírio Livre (ESL), são desde o passado dia 20 de Janeiro alvo de uma ofensiva militar por parte de Ancara na região síria de Afrin.

A Turquia, violando a soberania da Síria, procura impedir a consolidação de um enclave curdo que se estende pelos limites da Síria com a Turquia e o Iraque. Os EUA opõem-se à investida turca porque, face à debacle da sua estratégia de derrube violento do governo liderado por Bachar al-Assad, esta é a alternativa com que procuram impor uma divisão da Síria mantendo a influência, incluindo militar (têm, ilegalmente, instaladas bases militares na área, em Manjib, por exemplo), na zona de maiores jazidas de hidrocarbonetos da Síria (petróleo e gás natural).

Rússia, Síria e Irão exploram tacticamente a contradição de interesses entre turcos e norte-americanos, os quais, até meados de 2016, se mantiveram unidos na agressão à Síria. A ascensão dos curdos sírios no conflito ocorreu a par do desbaratamento das hordas terroristas do Estado Islâmico por parte das forças sírias-russas.

Ao acordar uma importante declaração final onde reafirma o respeito pela soberania, independência, integridade e unidade da Síria, e instituir uma comissão com competência para avançar com uma reforma constitucional na Síria, o diálogo realizado na estância balnear de Sochi tem o mérito de abrir espaço à negociação para o fim da guerra.

Raízes da guerra

A guerra contra a Síria, desencadeada em 2011, teve como narrativa, amplamente difundida pelas centrais de informação e cujos sedimentos ainda perduram, que o conflito nasceu e cresceu em resultado do esmagamento de uma «revolta popular» contra o governo de Bachar al-Assad. O elemento de ignição seria a pauperização e abafamento da liberdade das massas.

Boa parte do território sírio é desértico ou semi-desértico. Assolados pela ausência de precipitação nos primeiros anos deste século, centenas de milhares de agricultores sírios pura e simplesmente abandonaram a actividade. Milhares de cabeças de gado e a esmagadora maioria da produção agrícola desapareceram. Comunidades inteiras, segundo as próprias Nações Unidas, dirigiram-se para as cidades engrossando o contingente de pobres urbanos. A situação económica e social explosiva na Síria era do conhecimento de Washington. O governo sírio admitia ser incapaz de lidar sozinho com o perigo de uma vaga de fome.

É impossível afirmar sem dúvidas quem inflamou os protestos de Março de 2011 na Síria, os quais terão estado na base daquilo que o imperialismo começou por apelidar de «revolta popular». Mas os acontecimentos tornam plausível afirmar que gozando o imperialismo de um contexto favorável, terá movido os seus agentes para que surgissem à luz do dia armados, organizados e com um propósito imediato: o derrube do presidente sírio.

Quem explorou a seu favor a crise económica e social na Síria foi, assim, quem há anos acalentava o objectivo de depredar os seus recursos naturais e de destruir um Estado que contrariava os desígnios do imperialismo no Médio oriente. O imperialismo tinha o pretexto para fomentar a guerra e a balcanização do país, para deitar mão às segundas maiores reservas de petróleo da região.

Desde meados dos anos 60, o Estado sírio conserva o monopólio da exploração de hidrocarbonetos no país, o que, obviamente, não agrada aos EUA. Tão grave quanto isso, Damasco, Bagdad e Teerão planeiam a construção de condutas capazes de levar o petróleo iraquiano e o gás natural iraniano através da Síria até ao Mediterrâneo, projectos que colocam em causa os interesses norte-americanos e, também, das potências da União Europeia.

Guião de propaganda

Desde o início do conflito, EUA, Grã-Bretanha e França, na primeira linha, argumentaram que estavam a ser forçados a intervir na Síria perante a acção de Bachar al-Assad, que acusaram de agir contra o seu próprio povo, o qual, eles, ditos defensores dos fracos e oprimidos e em geral dos nobres valores universais e dos direitos humanos, iriam salvar. Directamente ou, como acabou por suceder, apoiando os «rebeldes» que agiam sob a bandeira das nações ditas civilizadas.

O guião não é diferente daquele a que assistimos, por exemplo, no Iraque. Mas mais recentemente podemos invocar o caso líbio, onde as mentiras para persuadir sobre a necessidade de a NATO ajudar os «rebeldes» no derrube de Muhammad Kadhafi e no consequente regresso da Líbia ao «mundo livre», pavimentaram o caminho para uma agressão imperialista com os resultados «humanitários» e «democratizadores» que estão à vista. A imposição de uma zona de exclusão aérea na Síria, à imagem do que sucedeu na Líbia condicionando a resposta de Tripoli à agressão jihadista, chegou a ser reclamada para a Síria. Acabou por não se concretizar, o que contribuiu para que Damasco e Bachar al-Assad tenham resistido.

Para a resistência síria entre 2011 e o final de 2015 (quando a Federação Russa entrou no conflito a pedido de Damasco, o que quer dizer a coberto da legalidade internacional, coisa que os EUA e os seus aliados não fizeram nem fazem) contribuiu decisivamente a existência de uma classe operária (calcula-se que cerca de um terço da população trabalhasse, antes da guerra, na dependência da indústria da energia) educada nos princípios da construção de uma pátria soberana, o que, por comparação, não existia na Líbia. Na Síria não ocorreram dissensões internas de relevo no aparelho político-militar, nem durante o período mais crítico, entenda-se, quando o governo sírio se debatia com a forte ofensiva dos mercenários desde Deraa, na fronteira com a Jordânia, até Alepo, na fronteira com a Turquia, passando por Homs, Hama, Latakia, Idlib e, naturalmente, Damasco. Acresce que o Hezbollah foi decisivo nos combates em defesa da soberania síria, envolvimento com o apoio iraniano que, além do mais, permitiu estancar o contágio do conflito ao Líbano, ou seja, a sua internacionalização geográfica.

A aposta imperialista voltou-se, por isso, para uma alegada ameaça química síria, traduzida, segundo a propaganda, em ataques contra civis que não deixavam outra alternativa senão a «intervenção humanitária» das potências globais.

Falso argumento

As acusações que esta semana ecoaram sobre ataques químicos por parte do governo sírio em Ghouta Oriental, um enclave terrorista que persiste, e a respeito das quais Washington admite não ter informações baseadas em provas, não só não são novas como repetem muitos dos ingredientes e meios da manipulação mediática que sobejam nestes já quase sete anos de guerra na Síria.

Recorde-se que um alegado ataque químico de Damasco em Ghouta, em Agosto de 2013 – o qual, posteriormente, veio a ser atribuído com elevado grau de probabilidade aos «rebeldes» – esteve na base da apresentação do governo sírio e do seu presidente Bachar al-Assad como «criminosos» contra os quais era urgente agir. Na sequência dos acontecimentos em Ghouta, a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) foi encarregue de monitorizar a destruição do arsenal sírio (por acordo entre a Rússia e os EUA), o que foi concretizado, não sem escolhos (equipas técnicas e observadores internacionais chegaram a ser alvo de ataques da autoria de grupos «rebeldes») mas com eficácia.

A OPAQ saudou a permanente e diligente colaboração de Damasco e acabou por ser agraciada com o Prémio Nobel da Paz, em 2013, mas nem isso impediu o imperialismo, os seus agentes no terreno e as suas centrais de intoxicação da opinião pública de continuarem a dar crédito a denúncias de ataques com armas químicas culpabilizando o governo liderado por Bachar al-Assad.

As principais fontes imperialistas têm sido o denominado Observatório Sírio dos Direitos Humanos, organização opaca e há muito desacreditada, sediada em Londres, que funcionou como correia de transmissão de vídeos e informações de diversa índole (bombardeamentos «indiscriminados» com os respectivos horrores, testemunhos de crianças e mulheres sob diversos formatos, particularmente «incisivos» aquando da batalha de Alepo, contagem de baixas e outros «factos»), que a generalidade dos órgãos de comunicação social difundiram sem verificação nem contraditório. Outra «fonte» são os chamados capacetes brancos, uma dita defesa civil da Síria que chegou a ser indicada para o Nobel da Paz, em 2016, apesar de comprovadamente ser uma fantochada onde alguns dos apresentados como «salvadores» nos resgates dos civis são, igualmente, os rostos dos que surgem nas imagens a respeito dos crimes mais hediondos cometidos na Síria: decapitações, uso de civis como escudos humanos, etc..

Apoio indesmentível

Provas indesmentíveis do uso de armas químicas por parte de Damasco nunca foram apresentadas, o que, a acontecer, além do mais colocaria em causa a OPAQ (e as Nações Unidas, já agora), que atestou a liquidação do arsenal químico da Síria. Pelo contrário, em mais do que uma ocasião, os grupos armados que a dada altura se confirmou serem constituídos por mercenários de mais de uma centena de nacionalidades, foram amplamente acusados, incluindo pela ONU, do uso de agentes químicos. De concreto sobre esta matéria, o que existe é que quando o Estado Islâmico (EI) lançou uma ofensiva contra o Iraque chegando a alargar o seu «califado» até às portas de Bagdad, entre 2014 e 2015, as Nações Unidas alertaram para uma grande quantidade de químicos que os jihadistas acumulavam em Mossul.

Os EUA conformaram na altura uma coligação internacional para conter o avanço imparável do EI no Iraque. Numa espécie de «guerra estranha», somaram fracassos e os erros embaraçosos para a Casa Branca, então ainda sob a égide de Barack Obama. Forças iraquianas atingidas pela aviação norte-americana, toneladas de armamento lançado por Washington para os «moderados» que acabavam nas mãos do Estado Islâmico ou da Frente al-Nusra, irmã da al-Qaeda, emergem desta campanha, confirmando o que há muito era denunciado: os EUA, a Turquia pelo menos até meados de 2016, e os estados vassalos do Golfo (Arábia Saudita, Catar, Jordânia, entre outros) armavam e treinavam os mercenários que assolavam a Síria. E por muito que ao passarem da Síria para o Iraque os EUA lhes mudassem o nome de «rebeldes» para «terroristas», tal não enganou ninguém.

Os campos de treino e de assistência aos mercenários com instrutores da NATO nas fronteiras da Síria com a Turquia e a Jordânia; carregamentos de material de guerra prontos para enviar para os «rebeldes», descobertos em portos espanhóis, ou a confissão de um comandante do ESL garantindo não existir diferença entre os «moderados» sírios e a Frente al-Nusra, entre outros factos, foram revelando quem patrocinava a agressão e a sua natureza imperialista.

Porém, as provas mais evidentes foram desvendadas no final do ano passado, quando as forças sírias e russas libertaram Deir-Ezzor e Raqqa. Na primeira, depois de identificarem um forte dispositivo norte-americano sem sinais de confronto com os jihadistas, descobriram, soterrado nos covis do EI, material militar fornecido por países da NATO. Na segunda cidade, que chegou a ser a capital do califado islâmico na Síria e no Iraque, a fuga dos terroristas e respectivas famílias foi escoltada pelos ...EUA. O que nem sequer foi inédito.

O drama humano vivido na Síria e pelos sírios forçados a migrar para a Europa sob as piores condições e com as piores consequências é uma história com contornos que ainda estão por contar em toda a sua extensão e profundidade. Pode ser que nos aproximemos da realidade à medida que o país, que já esteve à beira do precipício, seja conduzido para a paz que a actual viragem no conflito parece prenunciar, mas que o imperialismo norte-americano tudo continua a fazer para impedir.



Hugo Janeiro