• Gustavo Carneiro

A Intifada mostrou ao mundo a brutalidade da ocupação israelita
Davides contra Golias

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Na tradição judaica, o jovem pastor David, dispondo de uma simples funda e da fé inquebrantável no seu Deus, matou de um só golpe o gigante soldado filisteu Golias, tornando-se mais tarde num dos mais celebrados reis dos hebreus. Entre as narrativas do Antigo Testamento e a realidade do nosso tempo sobressaem profundas diferenças.

Hoje, o pequeno, frágil, praticamente desarmado, munido apenas da sua unidade e apego à liberdade e à terra que é sua é o povo palestiniano (a palavra Palestina deriva de filastin, relativo a filisteu); o opressor, gigante no poderio militar e ambições territoriais, é o Estado de Israel. Quanto aos pequenos lançadores de pedras, chamam-se agora Hassan, Ibrahim, Youssuf, Majdala, Fatma. Não são e nunca serão reis, mas filhos e netos dos refugiados de 1948 e 1967, residentes dos degradados campos de Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Faixa de Gaza.

Tal como ainda hoje sucede nos frequentes recontros com as forças de ocupação sionistas, durante a primeira Intifada (iniciada há precisamente 30 anos) as pedras foram, mais do que armas de guerra, símbolos de dignidade de um povo que persiste em resistir e da sua determinação em viver livre no seu próprio país. Ou não fossem elas, na sua maioria, lançadas contra carros blindados, peças de artilharia e checkpoints militares.

O dia 9 de Dezembro de 1987 marca o início da primeira Intifada (do árabe «sacudir») palestiniana. Nesse dia, no campo de refugiados de Jabalia, na Faixa de Gaza, um veículo militar israelita embateu contra um carro civil palestiniano, provocando a morte a quatro pessoas. Os protestos que então se iniciam alastram rapidamente a toda Palestina ocupada, assumindo o carácter de insurreição nacional visando pôr fim à ocupação. Às pedras somaram-se a desobediência civil, as greves, os boicotes. As mulheres e os jovens assumiram, com os homens, a vanguarda do movimento.

A repressão brutal provocou centenas de vítimas, mas não conseguiu abafar a revolta, que prosseguiu até bem adentro da década de 90.

Tomar nas mãos o seu destino

Como é evidente, os lamentáveis acontecimentos de 9 de Dezembro, por mais graves e reveladores que tenham sido, e foram, não explicam o levantamento palestiniano e a dimensão que este acabou por assumir. Constituíram, sim, a gota que fez transbordar um copo que se encontrava há muito demasiado cheio.

O historiador israelita anti-sionista Ilan Pappe, na sua História da Palestina Moderna – Uma Terra, Dois Povos (publicado em Portugal pela Caminho), nota que «após vinte anos de ocupação, a vida da maioria dos palestinianos consistia numa rotina familiar mas quase intolerável. No início de 1987, era já claro que nenhum factor externo ajudaria a libertar o povo da situação difícil em que se encontrava». Os palestinianos não tinham, portanto, qualquer outra alternativa que não tomar nas suas mãos os seus próprios destinos. Para o mesmo autor, a cooperação e convergência entre os refugiados, os palestinianos que viviam sob ocupação e os chamados «árabes israelitas» contribuiu também, em grande medida, para a dimensão e duração dos protestos.

Ao contrário do simbólico disparo de David, a revolta palestiniana iniciada em Dezembro de 1987 não derrotou ainda o poderoso inimigo. Mas contribuiu decisivamente para o enfraquecer e isolar perante o mundo – embora não da chamada «comunidade internacional», que é coisa bem diferente. Se até então a face mais visível da resistência palestiniana eram os corajosos guerrilheiros fedayin da Fatah ou da FPLP, a partir desse momento foi todo o povo que a assumiu. Algo que, com altos e baixos, continua a fazer até hoje.




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