- Edição Nº2297  -  7-12-2017

O heroísmo discreto de Catarina Machado Rafael

CENTENÁRIO Catarina Machado Rafael, nascida há cem anos, merece figurar na história como uma das mulheres comunistas que dedicaram o melhor da sua vida ao seu Partido e à luta pela democracia e o socialismo em Portugal.

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Louvor do Trabalho Clandestino

É bonito usar da palavra na luta de classes.
Clamar alto e bom som pela luta das massas.
Pisar os opressores, libertar os oprimidos.


Árdua e útil é a pequena tarefa de cada dia
que secreta e tenaz tece a rede do Partido
sob os fuzis apontados dos capitalistas.


Falar, mas escondendo o orador.
Vencer, mas escondendo o vencedor.
Morrer, mas dissimulando a morte.


Pela glória quem não faria grandes coisas?
Mas quem as faz pelo olvido?
E a glória busca em vão os autores do grande feito.


Saí da sombra por um momento
rostos anónimos, dissimulados,
e aceitai o nosso agradecimento.


Bertolt Brecht

 

Há pessoas, cujo nome a maioria de nós desconhece, a quem devemos muito mais do que imaginamos. Heróis simples, discretos, que dedicaram o melhor das suas energias e capacidades, as suas vidas inteiras, à luta contra a exploração e a opressão e que mesmo assim permaneceram na obscuridade da História, tanto pela natureza das suas tarefas como pelo facto de nunca terem almejado qualquer fama ou protagonismo. Catarina Machado Rafael é uma dessas pessoas.

Da sua biografia sobressaem os mais de 25 anos passados na clandestinidade: entre 1947 e 1973, Catarina e o seu companheiro, Joaquim Rafael, asseguraram o trabalho e a segurança das tipografias clandestinas em vários pontos do País, do Barreiro a Rio Tinto, passando pela Pontinha, Odivelas, Lisboa e Belas. Das suas mãos saíram inúmeras publicações, partidárias e unitárias, em particular o Avante!, o Militante, O Camponês, O Corticeiro, O Têxtil, A Terra, o Amanhã (jornal de jovens das Juntas Patrióticas da Juventude), o Tribuna Militar (órgão da Comissão de Unidade Militar) e centenas de milhares de manifestos e tarjetas de agitação.

Mas dizer isto é bem pouco, dada a dureza daquele trabalho, isolado da organização do Partido e da luta dos trabalhadores e do povo, para as quais tão valiosamente contribuía. Em 1965, no relatório que apresentou ao VI Congresso do PCP, Joaquim Gomes afirmava: «Quem pode imaginar quantas dificuldades é necessário vencer para montar, alimentar e manter uma tipografia nas condições de clandestinidade a que somos forçados? Quem pode imaginar quantos olhos e nervos têm sido gastos, em dias e noites seguidas, a juntar letras que nem sempre a escola ensinou a conhecer? Quem pode imaginar que, junto às caixas do “tipo”, têm crescido crianças e jovens que quase nunca brincaram com outras crianças e jovens, que da vida pouco mais conhecem que juntar letras e levar aos encontros, a horas certas o Avante! ou O Militante? E tudo isto não está nas páginas do Avante! ou nas linhas impressas, mas nas linhas que se não lêem e dificilmente se podem imaginar.»

Sacrifícios e alegrias

A vida de Catarina é a prova de quão acertadas foram aquelas palavras: a sua única filha, Mariana, nasceu numa tipografia e foi ela própria tipógrafa, funcionária do Partido e mãe na clandestinidade; por outro lado, o contacto diário com o chumbo e a tinta das tipografias degradou de tal forma a saúde de Joaquim Rafael que o casal foi forçado a sair da clandestinidade, contra a sua vontade, em 1973. O mestre tipógrafo ainda teve a felicidade de presenciar a Revolução pela qual tanto lutou, falecendo três meses após a madrugada libertadora de 25 de Abril de 1974.

A dureza da vida clandestina é apenas uma parte da história de Catarina Machado Rafael. Os anos passados na clandestinidade, a fazer bater o «coração da luta popular» – como o destacado dirigente do PCP José Moreira, assassinado pela PIDE em 1950, chamava às tipografias clandestinas –, foram também profícuos em alegrias e vitórias. Os milhares de exemplares de jornais, boletins e panfletos saídos das suas mãos – e das do seu companheiro – constituíram elementos fundamentais para alargar a consciência das massas quanto à natureza do fascismo e à via para o seu derrubamento e para reforçar a confiança na possibilidade de o fazer. Ao mesmo tempo que se revelaram decisivos na intensificação e mobilização para a luta por objectivos imediatos e estratégicos e na atracção de novos combatentes para as fileiras do Partido. Que maior felicidade pode existir para um revolucionário?

Numa entrevista concedida ao Avante! em Março de 2006, Mariana Morais recordava o amor que os pais sentiam pelo seu trabalho: «Participávamos numa coisa concreta, que se via. As ideias eram transformadas em palavras e estas em jornais e manifestos que eram levados às pessoas e que depois tinham uma realização prática nas lutas do nosso povo. E nós éramos actores disso.» Já para a elaboração deste artigo, lembrou a felicidade que a família sentiu quando, em Junho de 1955, imprimiu o Avante! número 200, pelo qual recebeu uma prenda simbólica da direcção do Partido, que reconhecia o valor e a importância deste casal de tipógrafos.

Vida de revolucionária

Catarina Machado nasceu em Vale de Vargo a 27 de Novembro de 1917 numa família de pequenos comerciantes. O seu pai, Bernardino Machado, era comunista e integrou a mesa que presidia a uma sessão dos trabalhos do II Congresso do PCP, interrompido pelo golpe militar fascista de 28 de Maio de 1926. Pela casa da família, próxima da fronteira com Espanha, passaram muitos militantes e quadros comunistas nas suas deslocações, entre os quais Bento Gonçalves.

Comunista era também o seu irmão, Fiel Machado, que foi preso juntamente com o pai em Janeiro de 1937. O primeiro saiu em Maio, enquanto o pai, violentamente agredido e transferido para o Aljube, esteve na enfermaria nos dias anteriores à sua libertação. Morreu poucos anos depois, por altura da derrota republicana em Espanha.

Foi este ambiente familiar e as lutas dos operários agrícolas de Vale de Vargo que moldaram a consciência revolucionária de Catarina Machado, que aderiu ao PCP no início da década de 40, anos decisivos para a construção do Partido e para a sua transformação numa grande força nacional, epicentro da luta antifascista. Em 1947, com 29 anos, mergulhou na clandestinidade com o companheiro, Joaquim Rafael, camponês oriundo de Santarém.

Após o 25 de Abril, depois de mais de um quarto de século na clandestinidade sem nunca ter sido presa e do falecimento do seu companheiro, Catarina Machado militou activamente nas organizações regionais do Alentejo e de Lisboa. Faleceu em 2010, em Almada, com 92 anos. Tanto no funeral como na cerimónia de deposição das suas cinzas na Vale de Vargo natal estiveram presentes familiares, camaradas e representações da direcção do Partido.