- Edição Nº2293  -  9-11-2017

Orçamento do Estado tem de estar ao nível da solidariedade do povo face às tragédias

INCÊNDIOS Jerónimo de Sousa visitou no domingo, 5, zonas atingidas pelos incêndios de 15 e 16 de Outubro e defendeu que o Governo tem que concretizar apoios imediatos para que os afectados possam «fazer face à vida. Agora.»

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A primeira paragem do Secretário-geral do PCP foi em Vila Cova do Alva, no concelho de Arganil, na exploração agropecuária de Natalina Jorge. O caminho até lá chegar, feito por entre quilómetros e quilómetros de área ardida no distrito de Coimbra, deixava antever o cenário que encontraríamos. Mas a confrontação com a realidade consegue superar os prognósticos mais pessimistas.

Natalina Jorge relatou a Jerónimo de Sousa e à delegação comunista que o acompanhava – Francisco Lopes e Alexandre Araújo do secretariado do Comité Central, Vladimiro Vale, da Comissão Política do CC e responsável pela organização Regional de Coimbra, entre outros dirigentes locais do PCP – uma versão sintética do filme dos acontecimentos. As chamas galgaram imparáveis destruindo o ovil até às bases e matando cerca de 170 ovelhas. Sozinha, Natalina Jorge defendeu a casa e a queijaria com baldes de água e até que as mangueiras derreteram. Conseguiu salvá-las, ao contrário do Ovil e do palheiro onde se encontravam 800 fardos que garantiam o sustento dos animais.

As ovelhas que escaparam têm as tetas queimadas, inviabilizando a continuação da produção de queijo da serra, produto de que Natalina Jorge tem certificado e a respeito do qual não esconde o orgulho.

Mas a tristeza e a incerteza são igualmente indisfarçáveis naquela produtora que, assegurando que não pretende desistir, desabafa que «sozinha não consigo». Carecem apoios públicos. Para já, além da solidariedade do povo português e de profissionais veterinários, Natalina Jorge não viu mais nada de tangível, algo que lhe dê a perspectiva de poder continuar, como sonha.

Alguns animais, financiamento para a reconstrução do Ovil e do palheiro é tudo quanto reclama para prosseguir uma actividade que já esteve para abandonar, mas na qual insistiu porque «o meu neto está desempregado e o meu filho encontra-se emigrado na Suíça, e era para que eles pudessem pegar nisto que eu levei até aqui».

Fazer acontecer

Jerónimo de Sousa despediu-se da exploração agrícola em Arganil deixando palavras de confiança e o compromisso de o Partido tudo fazer para que a vitalidade do mundo rural abalada pela tragédia seja conservada e impulsionada. Rumou ao concelho vizinho de Oliveira do Hospital, Serra do Açor a fora, onde há habitações que, desafiando toda a lógica, permanecem de pé entre as cinzas que configuram agora a paisagem.

Oliveira do Hospital foi dos concelhos mais afectados pelos incêndios de 15 e 16 de Outubro. O rasto das labaredas e o cerco a que chegou estar sujeita a cidade advinha-se não apenas nas redondezas mas igualmente ao entrar na malha urbana. Na zona industrial, Fernando Brites recebe a comitiva comunista.

Este pequeno empresário lutou durante mais de 40 anos para manter a fábrica de móveis e caixilharia em madeira no interior de um País tanto mais despovoado e abandonado pela política de direita quanto mais nos afastamos do Litoral. Fernando Brites foi parcialmente derrotado pelo fogo. Parcialmente, não de todo. «Já aluguei um outro pavilhão e com os 11 trabalhadores tentamos cumprir com as obrigações», conta ao Avante!.

Já na fábrica em escombros, entre destroços calcinados e pedaços de metal derretidos pelo calor, Fernando Brites emociona-se ao testemunhar o que sucedeu. Mas também quando apela a que o ajudem a reconstruir, que é como quem diz «a comprar máquinas e matérias-primas para recomeçar».

No final da visita, o Secretário-geral do PCP, defendeu «medidas urgentes» para «acudir às vítimas». O que não é incompatível com o lançamento de medidas de fundo, e muito menos com a continuação da reposição de direitos e rendimentos aos trabalhadores por parte do Governo, como alguns, a pretexto da necessária ajuda às populações assoladas pelos incêndios, começam a advogar, lembrou.

«A mesma disponibilidade que houve para salvar a banca» tem o Governo que demonstrar, designadamente concretizando no Orçamento do Estado para 2018 as verbas necessária para que as pessoas possam «fazer face à vida. Agora!».

«O que sobrou em solidariedade do povo português não pode faltar em medidas orçamentais», concluiu.

 


Hugo Janeiro (texto) Inês Seixas (Fotos)