• Filipe Diniz

Lénine, por Mayakovsky

[…] na fita do boné à luz brilhou –

«Aurora».

Uns correm a pedir ordens,

ou juntam-se a discutir,

outros tiram o retrato com um joelho em terra.

Para aqui, do fundo do corredor,

de lado

veio Lénine

sem ninguém notar.

Já iam por Ilyítch dirigidos para a luta,

mas ainda não o conhecendo por retrato,

empurravam-se, gritavam, mais afiados que navalhas,

os soldados entre si discutindo sobre ele.

E por entre a tormenta ansiada de ferro,

Ilyítch,

como se

estivesse a dormir

andava

parava

e,franzindo os olhos,

fixava-os

cruzando os braços atrás das costas.

[…]

Mas eu sabia

que aqueles olhos captavam

verdadeiramente tudo o que se dizia:

os gritos dos camponeses

e os gritos de guerra,

e a vontade dos operários de Nobélya,

e a vontade dos operários de Putílov.

No seu crânio

moviam-se

cem províncias,

e pensava

em 150 milhões

de pessoas.

Pesou

o mundo

no decurso

dessa noite […]

(Trecho do Poema a Vladimir Ilyítch Lénine, lido pela primeira vez por Mayakovsky em Outubro de 1921. A tradução é de Manuel de Seabra)




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