• Henrique Custódio

Sinais

O apoio do Governo português ao governo espanhol na questão da Catalunha pecou por demasiado pressuroso e arrisca-se a ser excessivo. Nomeadamente nas justificações para consumo interno, ao convocar-se os «interesses nacionais» no quadro da Espanha como cliente maioritário das exportações portuguesas, facto que a exuberância do Presidente da República, Rebelo de Sousa, também caucionou.

A forma zelosa do apoio governamental português ao governo espanhol no seu conflito com a Catalunha não se devia embrulhar em justificações mercantis, antes devendo procurar não ir além das obrigações protocolares de boa vizinhança; todavia, fê-lo e acabou a dar um apoio expresso à política seguida pelo governo de Mariano Rajoy neste caso, que disfarça muito mal uma quase irreprimível vontade de esmagar pela força os independentistas catalães.

Ora o simples bom senso, para além da História, indicam que a questão da Catalunha é política e que a via autoritária e repressiva seguida pelo governo de Rajoy, dentro de um Estado democrático e invocando os seus valores, é no mínimo controverso e nunca objecto de um apoio político expresso, mesmo quando são invocadas as «regras democráticas de um Estado de direito» – que, invocadas assim, parecem dar cobertura a tudo, incluindo às violações ad hominem das mesmas regras democráticas.

O Governo português devia, pelo menos, olhar para o comportamento dos senhores da Europa que, neste caso, assobiam olimpicamente para o lado para não se comprometerem com nenhum dos lados em conflito, enquanto ignoram grosseiramente o comportamento repressivo, autoritário e antidemocrático com que o governo de Rajoy está a conduzir o processo, prendendo dirigentes catalães eleitos enquanto convoca eleições antecipadas.

É preciso não esquecer desastrosas associações do passado recente entre governos portugueses e espanhóis, como foi manifestamente o alinhamento do governo PSD/CDS com o governo de Espanha (sempre chefiado por Rajoy) na recusa (solitária) dentro da UE à renegociação da dívida grega pedida pelo governo do Syriza. Nessa altura, o governo de Passos Coelho e o de Rajoy isolaram-se num empenho descarado em agradar à Alemanha e à sua liderança da Comissão Europeia.

Neste caso, não se compreende a pressa e a exposição em que incorreu o Governo português perante um governo em Espanha que é não apenas transitório, como todos os governos, mas também minoritário e periclitante na sua empáfia autoritária, dando-lhe um apoio expresso que a própria Comissão Europeia, mais toda a União Europeia não deram nem mostram sinais de o vir a dar proximamente.

Tanto empenho em cumprir os «compromissos com Bruxelas» e, depois, tanta desatenção aos «sinais» políticos que, silenciosamente, de lá vêm...

 



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