Desde sempre a música acompanha as revoluções populares
Música, companheira de luta e portadora de sonhos

EXALTAÇÃO No comício comemorativo do centenário da Revolução de Outubro, as canções assumiram um lugar especial, tal como sucede nas grandes batalhas libertadoras que forjaram os seus próprios hinos.

Não há, na história contemporânea (para não se ir mais atrás), avanço progressista e revolucionário que não tenha associado a si uma ou várias canções. Da Europa à Ásia, de África à América, os trabalhadores e os povos sempre encontraram na música, como noutras expressões artísticas, uma forma privilegiada e mobilizadora de animar a resistência à exploração e à opressão, exaltar combatentes e vitórias e, ao mesmo tempo, unir vontades para a sempre longa e dura luta pela libertação nacional e emancipação social. A arte – «expressão fremente da vida», como uma vez disse o compositor português Fernando Lopes-Graça – sempre recolheu inspiração nos sonhos colectivos de liberdade, progresso, justiça social e soberania: A Internacional, cantada uma vez mais pelos milhares de comunistas e amigos que encheram o Coliseu na noite de anteontem, é disto exemplo maior.

Mas outras canções por ali passaram, odes à resistência e à luta, ao sonho de um mundo de seres humanos livres e iguais que se constrói quotidianamente em duros combates de classe. E não há qualquer contradição entre o motivo do comício, a comemoração do centenário da Revolução de Outubro, e a interpretação de canções de latitudes tão diversas quanto Cuba, Chile, França, Itália, Espanha ou Portugal. Não só porque essa experiência pioneira de construção do socialismo escancarou as portas à luta dos povos de todo o mundo, como também pela evidente comunhão de objectivos em todos os processos cantados nesses hinos, com as naturais diferenças de caminho. Também por isso são escutadas e cantadas com a mesma emoção pelos explorados de todo o mundo.

Em frente!

As primeiras canções da noite tiveram na revolução de Outubro e nas lutas anteriores e posteriores do proletariado russo a sua inspiração: A l’appel du grand Lenine (chant des partizans) apela à luta contra as forças «brancas», de burgueses, latifundiários e monárquicos, na Guerra Civil que se seguiu à revolução. La Varsovienne (Warszawianka, no original polaco) é das mais conhecidas canções revolucionárias, em grande medida pelas muitas versões que conheceu, em idiomas como o russo, o francês e o castelhano. Originalmente escrita em 1893 como canto de protesto dos presos polacos do regime czarista russo, ganhou nova vida durante as revoluções russas de 1905 e 1917. No comício, teve direito a duas versões: uma instrumental e outra, com voz e guitarra, interpretada pelo russo Oleg Chumakov.

L'appel du Komintern, escrita em 1926, clama os operários de todo o mundo – «de Londres a Paris, de Budapeste a Berlim» – à luta pela revolução proletária: «Deixa as máquinas. Para a rua, proletários, marchem, preparem-se para a luta. Bandeira desfraldada, armas carregadas (…). Ao assalto, em frente. Temos um mundo a ganhar.»

Resistir e vencer o fascismo

Da Rússia revolucionária dos primeiros anos passou-se para a Europa subjugada, mas nunca vencida, pelo nazi-fascismo. Le Chants des Partizans é um notável apelo ao combate sem tréguas contra a ocupação nazi-fascista de França e, porventura, uma das canções revolucionárias mais recriadas no mundo: «Amigo, vês o voo negro dos corvos nas nossas planícies? Amigo, ouves os gritos abafados do país? Oh, combatentes, trabalhadores e camponeses, é o sinal! Esta noite o inimigo conhecerá o preço do sangue e das lágrimas!»

Na vizinha Itália, Bandiera Rossa celebra a bandeira vermelha, símbolo universal da luta dos explorados pela sociedade sem classes, e é um dos mais célebres hinos do movimento operário daquele país. A música é tradicional da Lombardia e a letra original, de 1908, conheceu alterações para a adaptar aos combates posteriores contra o fascismo de Mussolini e a invasão nazi: «Avante povo, ao combate, a bandeira vermelha triunfará!».

A luta do povo português contra o fascismo e pela liberdade esteve presente em duas canções. O Hino de Caxias celebra a coragem e a resistência que tornou possível a revolução de Abril, de que deram provas os próprios autores da canção, presos políticos na cadeia de Caxias: «Podem rasgar meu corpo à chicotada, podem calar meu grito enrouquecido, que para viver de alma ajoelhada, vale bem mais morrer de rosto erguido.» Escrita igualmente na prisão de Caxias, Era um Redondo Vocábulo, de José Afonso, não sendo propriamente um hino revolucionário, é uma composição musical soberba de um artista cujo nome ficará para sempre ligado à Revolução de Abril.

Canción de la Unidad Popular, do grupo Inti Ilimani, expressa a esperança aberta pela vitória eleitoral de Salvador Allende, em 1970, e as profundas transformações que se seguiram, abruptamente interrompidas pelas botas cardadas de Pinochet com a protecção e o estímulo dos EUA. Na verdade, e como dizia a canção, «desta vez não se trata de mudar de presidente, será o povo que construirá um Chile diferente». El Pueblo Unido Jamas Sera Vencido, do mesmo grupo, popularizou uma palavra de ordem que, até aos nossos dias, dá sentido a muitas lutas pelo progresso e a justiça social.

Corações ardentes

De volta à União Soviética, que como nenhum outro país contribuiu decisivamente para esmagar o nazi-fascismo, Sveshenaya Voina, a Guerra Sagrada, exalta o povo soviético à resistência face aos «opressores das ideias justas, violadores, bandidos, carrascos do povo», que o levaria, como levou, à vitória.

El Pozo Maria Luiza nasceu nas Astúrias mas tornou-se no hino de todos os mineiros do mundo, conhecendo versões em diversos idiomas, entre os quais o português. Realça o trabalho duro e perigoso das minas, as dores e as esperanças dos mineiros. Guantanamera, cujo poema é do pai da independência cubana, Jose Marti, é um canto de amor à pátria que se quer livre e, ao mesmo tempo, aos «pobres da terra», irmãos de infortúnio e de combate.

Tal como outras, também Bella Ciao é originalmente uma canção popular, assumida pela resistência antifascista italiana, que a transformou num dos mais conhecidos cantos de combate do mundo. Exalta os guerrilheiros mortos na luta contra o opressor, sepultados «sob uma linda flor», a «flor do homem da resistência». A última canção do programa, a russa Katyusha, foi cantada à porta do Reichstag em Maio de 1945, após a rendição das forças nazis face ao heróico Exército Vermelho. É porventura a mais reconhecida das canções do tempo da Grande Guerra Patriótica soviética, que cedo se transformou no epicentro da batalha mundial contra o nazi-fascismo.

As canções que soaram no palco do Coliseu constituíram muito mais do que um simples momento cultural do comício. Foram, em si mesmas, um vibrante factor de mobilização para a luta quotidiana, pois como afirmava o dirigente maior da Revolução de Outubro, a revolução faz-se com organização e corações ardentes, como aqueles que batiam fortes na transbordante sala de espectáculos lisboeta.



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