• Correia da Fonseca

O regresso da guerra do fogo

À revelia da chegada do Outono, as temperaturas subiram um pouco acima do que estaria combinado e logo os incêndios regressaram ao Portugal verde ou que verde estaria se não fora o acontecido desde Junho passado. Por consequência, regressaram os fogos também aos ecrãs dos nossos televisores que às horas dos noticiários, e também fora delas, se tingiram de diversos matizes rubros, pois como sabemos os telecanais ditos generalistas, quando não também os outros, são doidinhos por desgraças. Entretanto, aconteceu que mesmo adicionando ao calor a secura da atmosfera e os ventos aliás normais em qualquer altura do ano, não pareceu a muitos que esse conjunto possa ter sido causa bastante para o calamitoso efeito, e daí à suspeita de origens criminosas foi um curto passo dado por muitos. Houve mesmo pelo menos um autarca a quem, graças à televisão, ouvimos dizer da sua «certeza absoluta» de ter havido fogo posto na sua região, e justificava a afirmação com factos verificados: o início dos incêndios em altas horas da noite, o seu princípio em locais onde seria de todo improvável que irrompessem espontaneamente. Não foi ele o único que, ao longo dos últimos meses, exprimiu esta opinião. E, para além de outras boas razões, este facto seria o bastante para que os cidadãos de todo o País, e não apenas os das zonas flageladas, já tivessem informação acerca de diligências e investigações eventualmente em curso acerca de questões importantes: haver ou não certezas de crimes incendiários, terem sido identificados e detidos alguns e não apenas um ou dois dos presumíveis criminosos, haver motivos para crer que a raiz de alguns fogos mergulha em interesses de algumas actividades comerciais: flutuam suspeitas provavelmente infundadas sobre o comércio de madeiras queimadas para fabrico de papel ou outra utilização, outras sobre áreas relacionadas com o próprio combate aos incêndios, outras ainda. E é claro que este clima nebuloso está longe de ser saudável.

O direito de saber

Na verdade, ainda que longe do carácter de «certeza absoluta», estará generalizada no País a convicção, ou pelo menos a forte suspeita, de que muitos dos incêndios florestais deste Verão, agora prolongados pelo Outono adentro, têm a tal raiz mergulhada em incertos terrenos que parecem intocáveis, pois sobre eles não nos dá a TV, nem aliás outros media, a menor palavra esclarecedora ou simplesmente interessante. Poderá não haver nada para revelar ou sequer para justificar uma investigação, e a ser assim também se imporá uma informação que varra conjecturas injustas; mas de um modo ou de outro, não podem os portugueses ficar condenados à ignorância ou à mera suspeita de que alguma coisa é justo saber-se e não se sabe: no mínimo, é preciso esclarecer que nada justifica as tais suspeitas afinal talvez decorrentes de maledicências e invejas que neste nosso belo País até florescem com muita facilidade. Neste como aliás noutros casos, a dúvida em ambiente nebuloso é insuportável e tendencialmente tóxica. E há, bem se sabe, quem tem o dever de dissipá-la.




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