• Manuel Augusto Araújo

Bienal
Arte para todos

Este ano na Festa do Avante! a Bienal celebrou a sua vigésima edição. Concorreram duzentas e vinte e cinco obras, algumas do estrangeiro e de jovens artistas. O júri selecionou setenta e nove obras por critérios que, aos próprios, causam sempre as interrogações das suas certezas relativas com que procuram fazer justiça cometendo injustiças, essa é danação de qualquer júri por mais criterioso que seja, por mais conceituados e experientes que sejam os seus integrantes. A resultante dessa selecção foi um conjunto muito diversificado de obras que recorrem a várias técnicas e linguagens, em linha com a pluralidade dos tempos que correm.

No conjunto das obras expostas há uma generalizada solidez de execução técnica, o filtro mais seguro de selecção que se sobrepõe a outras considerações de carácter subjectivo, sempre presentes, mas em plano recuado. Não seria exceptável, como o não é nas centenas de exposições que se realizam por todo o País, o surgimento de uma obra prima, mas várias obras anunciam ou confirmam artistas com uma qualidade que os colocam num primeiro plano das artes nacionais.

Independentemente de uma apreciação crítica das obras a Bienal da Festa do Avante! o que é relevante é continuar a cumprir os fins que estavam e estão na raiz da sua realização. O seu objectivo, desde que foi proposta e se concretizou uma primeira exposição de artes visuais no contexto da Festa do Avante!, ainda sem se chamar bienal por não estar decidida a sua periodicidade, era evidente: colocar os milhares de pessoas que acorriam à Festa em confronto com obras de arte que para muitas lhes eram distantes ou mesmo quase desconhecidas por se encontrarem confinadas em espaços, como museus e galerias, que têm sempre uma aura de sacralidade onde o espectador se isola, para ver os objectos classificados como arte num meio em que o tempo histórico se torna intemporal. São espaços importantes para o conhecimento da arte, mas onde se codificam preconceitos e a estética é transformada em elitismo através do pretensiosismo social, intelectual financeiro. A ideia foi construir um espaço onde, durante três dias, essa realidade era virada do avesso acabando por contribuir decisivamente para a democratização desses outros espaços que, por essa via, seriam procurados por um novo público. Obviamente que a linha de horizonte da Bienal era e é concretizar uma das funções mais antigas da arte: a transmissão de conhecimento pela arte, a da pedagogia didáctica. É um alvo em que a Bienal continua a acertar sem desvios. Há um público que durante anos foi sendo conquistado para as artes e há um público que, pela primeira vez, está a ser conquistado. Nenhum outro espaço em que se expõe obras de arte tem essa capacidade, o que torna a Bienal de Artes Plásticas da Festa do Avante!, um espaço único no trabalho de divulgação das artes. O número de visitantes, o interesse que suscita não tem paralelo nem é comparável, é uma realidade independente e sempre nova apesar da sua idade.

 



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