• Correia da Fonseca

Os sinais

A RTP2 está a transmitir em repetição, agora na chamada hora do almoço (designação que presume que todos os portugueses podem almoçar), a série «Uma aldeia francesa», transmitida não há muito tempo em «horário nobre» no mesmo canal. A proximidade temporal da primeira transmissão pode sugerir que seria demasiado cedo para uma repetição. Não é assim por várias razões, uma das quais será que a composição da imaginária teleplateia que olha e ouve TV por volta das 14 horas não é a mesma que a frequenta à noite, altura em que as telenovelas e outras droguinhas menores dominam as audiências.

Esta, porém, é apenas uma justificação menor para a repetição de «Uma aldeia francesa»: o mais importante é que, como bem se lembrará quem acompanhou a primeira transmissão, a série conta-nos como teria decorrido o quotidiano numa localidade rural de França durante a ocupação alemã nos anos de 40 a 44 do passado século, denuncia a brutalidade dos nazis e refere com clareza o heroísmo da Resistência apesar das contradições internas que nela já então despontavam.

Não será de mais dizer que «Uma aldeia francesa» é uma lição de História contemporânea, mas talvez convenha acrescentar que é uma prevenção para a actualidade, o que pode ser ainda mais importante. Num momento em que na televisão, como aliás também fora dela, são quotidianas as dissimuladas injecções de vírus ideológicos para que não cuidemos do fundamental e nos divirtamos com o que nem acessório chega a ser.

Um apreço inquietante

Não se trata apenas do crescimento por essa Europa fora das tendências de extrema-direita em grande parte alimentadas pelo medo suscitado pela vaga migratória proveniente da margem sul do Mediterrâneo: acontecem sinais de fenómenos sociais ainda mais graves. É o caso da simpatia com que, segundo media germânicos, boa parte da população alemã, com relevo para os jovens, encaram a Wehrmacht de Adolfo Hitler, apreço esse que se estenderá às sinistramente famosas SS e ao fascínio visual provocado pelos seus uniformes negros que em tempos passados inspiraram o poema de um poeta português presente em diversas antologias poéticas.

Esse actual olhar alemão sobre o exército nazi decorre da admiração pela força que exibiu pelo menos nos primeiros anos 40, também pelos aspectos quase cenográficos que o nazismo utilizou e porventura pelo sobrevivente poder de atracção que o lisonjeiro mito do herrenvolk, da raça superior, ainda hoje exerce sobre parte da população alemã. A isto se acrescentará a consciência de que a Alemanha detém um poder dominante na Europa e o consequente sentimento de que esse domínio lhe é devido por uma superioridade rácica.

Assim, bem se pode dizer que o suposto cadáver do nazismo, em verdade nunca sepultado tão fundo quanto era necessário, está a dar sinais de retorno à vida, pelo que é não apenas útil, mas de facto necessário e urgente, revisitar a realidade atroz que ele protagonizou. É essa revisitação que, embora só em pequena parte, «Uma aldeia francesa» permite. Não será preciso acrescentar mais nada para justificar o aplauso à repetição agora em curso.

 



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