Circulatura do quadrado

Neste mês o PCP assinala 96 anos de vida e de luta. Há pouco mais de um ano, nesta mesma coluna, assinalávamos os critérios editoriais que ditaram a ocultação e a deturpação do que foi dito no comício na Aula Magna, em Lisboa, do 95.º aniversário do Partido. Hoje, depois de três iniciativas de aniversário com o Secretário-geral, podemos dizer o mesmo.

A excepção, que registamos, foi a peça do Jornal de Notícias sobre o comício do Porto, no último fim-de-semana, ainda que muito aquém da dimensão da iniciativa, num dia em que a manchete falava de autocarros esgotados. De resto, o aniversário do PCP na imprensa resume-se a pequenas caixas que, em alguns casos, nem referência fazem à ocasião assinalada, o aniversário de um Partido com uma história ímpar. É caso para perguntar: quem, neste País, realiza iniciativas com mais de 1200 pessoas num sábado, outras tantas no dia seguinte e mais de 800 passado uma semana?

Mas o prato forte da já costumeira prática de esconder o que o PCP diz e faz foi servido pela televisão, na antena da SIC. E começou em grande, logo no comício de dia 4, em Lisboa, não destacando sequer uma equipa para o acompanhamento da iniciativa. Consultámos o alinhamento do Jornal da Noite emitido na data para procurar o acontecimento extraordinário que ditou tal opção, mas entre dez minutos dedicadas às eleições de um clube desportivo, os tweets do presidente norte-americano e a neve que já não caía nas serras do Alvão e do Marão, ficámos sem resposta.

No dia seguinte procuraram corrigir o tiro, enviando uma equipa de reportagem ao almoço do Alentejo e dando destaque nos noticiários da SIC Notícias das 16 e das 17 horas. Mas três horas é muito tempo, e chegadas as 20 de novo se impuseram outros temas mais prementes da actualidade – ou nem tanto, se atendermos que tiveram mesmo que repetir a mesma peça sobre o mesmo tweet de Donald Trump. Tudo isto em dia do comentário dominical de Marques Mendes, onde abordou a situação do governador do Banco de Portugal, tema tratado na intervenção de Jerónimo de Sousa. Uma coincidência a registar.

Uma semana depois, de novo a mesma estratégia: se às 16h30 o comício do Porto justificava um directo da intervenção do Secretário-geral do PCP de quase três minutos e às 18 surgia nos primeiros minutos do noticiário da SIC Notícias, chegada a hora do Jornal da Noite no canal generalista nada se vê. Mesmo que, de novo, Marques Mendes, na sua meia hora semanal, sem contraditório, tenha falado de temas que Jerónimo de Sousa também abordou.

São estas as opções editoriais de quem tem vindo a dar palco à campanha contra a Caixa Geral de Depósitos, com Marques Mendes a lançar a lebre ao domingo, o director-adjunto a dizer o que não disse do BES, «não comprem!», à quarta, e Lobo Xavier a fechar o círculo à quinta.

Tudo isto na mesma estação que ainda na última semana avançou para o despedimento de 20 profissionais, nomeadamente jornalistas, com claro reflexo na «qualidade e pluralismo da comunicação social em Portugal, com reflexos na vida democrática do País», como o PCP assinalou.




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