• Ângelo Alves

Três notícias, o mesmo roubo

Dez mil milhões de euros de transferências para offshores passaram ao largo do fisco português entre 2011 e 2014. Sim, exactamente os anos da troika instalada de armas e bagagens em Portugal, monitorizando o empenho do governo PSD/CDS na aplicação do pacto de agressão subscrito por estes dois partidos e pelo PS. Era o tempo do «equilíbrio» e do «rigor das contas públicas”, do ajustamento, necessário porque os portugueses tinham andado anos a viver acima das suas possibilidades. Pois bem, fique o leitor a saber que esses 10 000 milhões de euros (algo que daria para pagar a saúde e a educação de todos os portugueses durante um ano) passaram ao estreito porque o governo se «esqueceu» de cobrar impostos sobre essas transferências.

A estes 10 000 milhões teremos de somar as fugas aos impostos e as benesses ao capital, como por exemplo a descida do IRC. Mas teremos de somar ainda os cerca de 20 mil milhões de euros retirados dos nossos bolsos para apoios à banca, nomeadamente nas operações relativas ao BPN, BES e BANIF. Não fomos os únicos. Segundo um estudo do Transnational Institute, publicado ontem, os apoios à banca com dinheiros públicos ascenderam, entre 2008 e 2015, a 747 000 milhões de euros no conjunto dos estados da UE. Sabemos bem dos efeitos destes autênticos roubos no nosso País. Aliás, segundo estudos recentes, está provada a relação directa entre os grandes «regastes» e o aumento do desemprego e da pobreza.

O caso da Grécia é paradigmático. Os gregos foram obrigados a entregar, no período acima referido, cerca de 30 000 milhões de euros à banca. Enquanto o grande capital financeiro sorvia, e sorve, o dinheiro dos gregos, 22,2% da sua população sofria, em 2015, de «privação material severa»; em 2008 eram 10%. O tormento grego está longe do fim. Como previmos, a aceitação pelo governo grego do Syriza das «regras» transformou-o em mais um carrasco do povo grego e num cúmplice do roubo. Um roubo agora mascarado com repugnante cinismo e hipocrisia, ao afirmarem (governo, UE e FMI) que não haverá mais «austeridade», mas sim «reformas estruturais». Onde? No mercado laboral, nos impostos e nas pensões. Tudo com medidas «pré-legisladas» pela troika. Ou seja, um roubo ainda mais grave e estrutural.




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