Carapaus de Corrida

A semana que passou ficou marcada por aquilo a que o Inimigo Público designou de «UHFgate». Redes sociais e comunicação social inundaram-se com o pseudo-polémico cancelamento da presença dos UHF na Festa do Avante!. Edições dos jornais, rádios e televisões nacionais on-line, jornais na sua edição impressa, artigos de opinião e mesmo alguns canais a fazerem notícia na sua emissão televisiva.

Felizmente o take da Lusa fechava com o programa da Festa, o que permitiu que o cartaz tivesse o maior «furo» de divulgação dos últimos anos. Curioso: o cancelamento de uma banda justifica a notícia que as centenas de artistas que actuam, de facto, na Festa do Avante! nunca mereceram, particularmente este ano, em que se assinala a sua 40.ª edição.

Duas notas meramente contabilísticas: primeira, as peças editadas pelos órgãos de comunicação social nacional de apresentação do Programa da Festa nos últimos quatro anos, todas somadas, foram inferiores ao número de peças editadas sobre o cancelamento dos UHF; segunda, das duas iniciativas com o Secretário-geral sobre o alargamento da Festa do Avante! à Quinta do Cabo (lançamento e encerramento), o tratamento televisivo foi, no primeiro caso, reduzido a uma frase sobre o ministro da Educação, no segundo caso, reduzido a uma reacção sobre um relatório do Tribunal Constitucional.

Já muito se escreveu sobre os epifenómenos das silly season – talvez isso justifique que o acampamento de uma juventude partidária mereça um total de cinco páginas em três edições distintas num jornal nacional – mas isso nunca justificará porque é que, no que de mais singular e revolucionário constitui a realização da Festa do Avante!, nas suas vertentes de trabalho militante, solidariedade, camaradagem abnegada, e também da plenitude da cultura de um povo e de muitos povos, seja sempre e só reduzida ou à polémica ou à rentrée.

Como é possível que festivais de Verão e bailes populares tenham direito a cobertura continuada, em directo, dos espectáculos, antevisões, portas a abrir, entrevistas com artistas, com organizadores – «pela primeira vez um festival com cinema» (?), «pela primeira vez um festival com um componente dedicada às crianças e famílias» (?), «pela primeira vez um festival onde se pode comer bem» (?), «um festival único com teatro e dança» (?) – e para a Festa do Avante! apenas a dimensão política? Andaram distraídos ao longo destas 40 festas?

Talvez por isso, jornalistas que pela primeira vez fazem a cobertura da Festa, não deixem de se espantar. Estreantes ou não, que venham, venham por bem, talvez se surpreendam.




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