Em rodapé

Correia da Fonseca

A Síria é, como sabemos, um dos lugares que mais são referidos quando os nossos televisores se dispõem a contar-nos o que de mais importante acontece nos quatro cantos do mundo, digamos assim, com perdão da falta de rigor geométrico da fórmula. Nem sempre foi assim, longe disso: durante décadas, a Síria só era referida quando a TV aludia aos Montes Golã como permanente ponto de tensão entre a Síria e Israel, e mesmo então poucos telespectadores sabiam que essa situação decorria do facto de os tais Montes Golã, território sírio, terem sido anexados por Israel na sequência da chamada Guerra dos Seis Dias no ano já muito distante de 1967. O que não tem importância nenhuma, acrescente-se, pois é sabido que Israel está factualmente autorizado a ocupar e anexar o que muito bem entender e lhe der jeito sem que nada de desagradável lhe aconteça. Regressando à actualidade ou à proximidade dela, digamos que não há muito tempo a TV nos falava regularmente da Síria onde, ao que nos dizia, um sujeito péssimo chamado Bashar-al-Assad, filho de um pai que morreu de morte matada, como se diz ou dizia no Brasil, e que se portava tão mal que até mantinha relações de amizade e cooperação comercial com a então União Soviética, se empenhava em exterminar a população do país com doses de gás letal. Ao que parece e pelo menos foi dito ainda que sem grandes esmiuçamentos, boa parte da população síria havia respirado os ares da chamada Primavera Árabe, fenómeno político cujas raízes também não parece que tenham sido suficientemente esgravatadas, pelo que se havia revoltado contra Assad com o apoio talvez não apenas moral de regimes monárquico-feudais da região tão comprovadamente democráticos que gozam da amizade dos Estados Unidos e deles são objectivamente aliados.

Pequenina e fugaz

Ora, como se ia dizendo, nos últimos tempos a Síria e o que de terrível por lá continua a acontecer deixou de ser o facto dominante referido pelos telenoticiários portugueses quanto àquele país: a tónica noticiosa passou a ser a tragédia designável e designada por «o drama dos refugiados». Não será de estranhar muito que assim tenha acontecido: o caso é que «o drama dos refugiados», e até não apenas dos refugiados sírios mas eventualmente também de refugiados de outras origens, pode ameaçar tornar-se um dia o «drama de uma Europa» que durante séculos dominou e sobre-explorou os vastíssimos territórios ao Sul do Mediterrâneo, semeando guerras e fomes de que embolsou proveitos e de que se arrisca a colher agora amargo fruto. De qualquer modo, acontece que a Síria propriamente dita e não apenas os sírios que de lá tentam escapar voltou a ser referida pela TV. Porque, ao que se diz, a aviação russa (e parece que também a aviação francesa) interveio contra o chamado Estado Islâmico, o que é obviamente um abuso porque quem tem direito a bombardear qualquer ponto do mundo é a força aérea norte-americana e mais nenhuma. A coisa agrava-se, porém, quando a notícia surge como foi dada pela TVI24: «bombardeamento russo a opositores financiados pela CIA». Isto é: de súbito, surge na televisão portuguesa, embora pequenina e fugaz, a informação que permite compreender a raiz ou, se se preferir, a semente ou o adubo da insurreição armada contra Bashar-al-Assad, esse grandessíssimo ditador que não segue o exemplo dos muitos ditadores bons que são amigos e protegidos de Washington, que tem a audácia de manter com a Rússia um entendimento já herdado do pai assassinado. Informação que surge discreta, é certo, em rodapé no ecrã dos televisores. Mas surge e é lida, os telespectadores têm olhos e por vezes reparam em pormenores fugidios. Têm olhos e cabeça para entenderem.