• Correia da Fonseca

Mil dias

Foi na imprensa e não na TV que um dia destes encontrei a informação de que Passos Coelho completava mil dias na chefia do Governo. Achei curiosa a contagem porque o período de mil dias tem sido relacionado com algumas desgraças ocorridas em vários lugares do mundo: lembro uma guerra que flagelou a Colômbia na passagem do século XIX para o século XX e lembro sobretudo o trágico cerco de Leninegrado pelas tropas nazis no decurso da Segunda Guerra Mundial que de facto não durou os exactos mil dias mas que ficou associado a esse número redondo. Creio mesmo que a Sétima Sinfonia de Chostakovich, inspirada pelo cerco e pela heróica defesa da cidade, que terá motivado o segundo Prémio Staline atribuído ao compositor, é por vezes designada por Sinfonia dos Mil Dias, se estou enganado peço desculpa. De qualquer modo, é claro que não vou incorrer no suposto humor pífio e de mau gosto que levaria a comparar a governação de Passos Coelho a tamanhas tragédias, a dimensão dos seus crimes é outra, mas o facto é que estes mil dias que agora se completaram se concretizaram por uma enxurrada de infelicidades e dramas que cobriram o País de ponta a ponta. E é claro que quando aqui se fala em país se está falar em povo, em gente, em cidadãos, pois obviamente recusamos o embuste ridículo protagonizado recentemente por um deputado PSD que sustentou um imaginário equilíbrio compensatório entre o agravamento da situação dos portugueses e a suposta (e efectivamente mentirosa) melhoria da situação do País.

Um repugnante currículo

De qualquer modo, já que foi feita a contagem e se resolveu assinalar a chegada ao milésimo dia, não teria sido absurdo nem inútil que a televisão se desse ao trabalho de arrolar os resultados calamitosos desta governação. Afinal, é sabido que a TV gosta de desgraças, aparentemente de saboreá-las e de impor aos telespectadores o seu acre sabor, e nesse inventário disporia de desgraças de diverso tipo e intensidade numa espécie de tristíssimo catálogo. Neste seu fascínio por calamidades, um canal especificamente informativo deu-se recentemente ao gosto de abrir um seu serviço noticioso com a informação de que em Los Angeles se sentira um sismo com a intensidade de 4,4 que não provocara qualquer vítima e se saldara pelo susto. É certo que para a televisão portuguesa, e não apenas para ela, o que acontece em Los Angeles, que até é zona residencial de muitos titulares de fortunas e de gente brutamente mediática, é muito mais importante que o que acontece no Seixal ou no Redondo, onde a maior parte dos habitantes só parece servir para trabalhar no duro e contar os cêntimos que lhes cabem na velha situação de «muita força por pouco dinheiro» cantada pelo Sérgio Godinho. Ainda assim, porém, talvez não fosse má ideia que a informação televisiva portuguesa nunca se afastasse do bom-senso e do decoro, sempre se ativesse ao importante e significativo, e neste sentido (como diria o camarada Jerónimo) se aplicasse a informar-nos honesta e objectivamente do assustador cortejo de cruéis maldades praticadas por este Governo num período de tempo afinal relativamente curto. Não me atrevo a tentar fazer aqui, no curto espaço que desta dupla coluna ainda me sobra, o registo desse extenso currículo de facto repugnante a que bem se poderia chamar cadastro em atenção à conotação negativa que a palavra arrasta, mas o contacto que os leitores deste nosso jornal têm com a realidade e a solidária atenção que lhe prestam dispensam-me, de qualquer modo, dessa tarefa. Todos sabemos dos trabalhadores despedidos que a angústia estrangula, das lágrimas de mães e pais perante as diversas formas de penúria que são obrigados a impor aos filhos, do momento pungente em que famílias se despedem das casas que habitaram durante anos e anos e de onde são agora expulsas, dos adeuses aos que partem para a aventura incerta da emigração. Todos o sabemos, como sabemos agora que a sementeira dessa seara de desgraças começou há mil dias. Restando-nos, é claro, fazer alguma coisa para que não se prolongue por muitos dias mais.




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