E não querem mais nada?

Anabela Fino

Os senhores do FMI estão preocupados com a situação de Portugal e fizeram questão de dar a conhecer essa preocupação que os atormenta, coitados, no relatório da sexta avaliação do chamado memorando de entendimento. Esperam, por ventura, comover o «bom povo» português, classificado pelo Gaspar das Finanças como «o melhor povo do mundo», e desta forma resolver um intrincado problema com que se depararam, para sua própria surpresa, já que nada, mas mesmo nada da sua muito fraternal e solidária intervenção neste rectângulo o poderia fazer prever.

Trata-se, ao que dizem, da constatação de que «está a crescer» no País uma insólita «fadiga em relação à austeridade». Fora isso, ao que parece, está tudo bem, não faltando elogios à forma como decorre o programa de ajustamento.

Não sendo de crer que os senhores do FMI desconheçam o relatório de Inverno do Banco de Portugal e as suas perspectivas para 2013 – o dobro da recessão prevista, o dobro da queda do consumo privado, o dobro da queda do investimento, liquidação de mais 100 mil postos de trabalho, ritmo das exportações a cair para metade – é de concluir que nada disso tem importância de maior para tão iluminados cérebros, que apenas se interrogam por que carga de água é que os portugueses estão a ficar fartos de austeridade. Mais ainda, os referidos senhores constatam, com manifesta perplexidade, que «com o desemprego ainda a subir e o rendimento disponível a cair, os partidos da oposição e as organizações da sociedade civil estão a vocalizar cada vez mais fortes objecções a elementos-chave do programa», o que não só é de todo incompreensível mas sobretudo inadmissível.

Haverá quem veja aqui uma subtil sugestão ao Governo para recorrer aos meios adequados para calar as objecções, mas isso é especulação de mentes perversas.

O que os senhores do FMI querem é um amplo consenso social em torno das «reformas necessárias», as que aí estão e as mais que se anunciam, e que consistem em rapar o fundo ao tacho das funções sociais do Estado. É isso que se espera de um «bom povo», não é verdade? Pôr a cabeça no cepo e ficar agradecido por lha cortarem. Cabe perguntar se não querem mais nada...



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