• Anabela Fino

Este é o tempo

Os últimos dias foram férteis em acontecimentos inquietantes, susceptíveis de provocar em qualquer um de nós uma diversificada gama de reacções – perplexidade, espanto, indignação, angústia, raiva... – e sobretudo muitas interrogações quanto ao futuro. Num tempo em que as agências de rating parecem ditar o destino dos países e os «mercados» são quem mais ordena, mesmo quem pouco ou nada percebe de negócios nas bolsas de valores – ou seja a maioria de nós – dificilmente poderá ficar indiferente ao frenético sobe e desce de acções que os noticiários nos servem às refeições, como se disso dependesse o arroz e feijão que se põe na mesa. Num tempo em que as imagens de bairros londrinos em chamas e de batalhas campais entre jovens e polícias fazem manchetes na comunicação social, poucos deixarão de se interrogar sobre as causas profundas desta explosão social que só por hipocrisia política pode ser reduzida à sede de vandalismo e pilhagem. Num tempo em que o Governo PSD/CDS promove o chamado Plano de Emergência Social como se fora um atestado de garantia do seu empenhamento na defesa da justiça social, enquanto cavalga desembestado no caminho aberto pelo PS de ataque a todos os direitos fundamentais conquistados por gerações de trabalhadores e pelo povo português, muitos se questionarão sobre que raio de democracia é esta que está a fazer regredir a sociedade aos mais negros tempos da exploração e opressão, a aprofundar de forma brutal as desigualdades sociais. Num tempo em que a «crise» justifica a imposição de todos os sacrifícios – o que não é o mesmo que dizer sacrifícios para todos – e cada nova medida é mais um passo para o abismo, haverá certamente quem estranhe que com tanta análise, tanto comentário, tanta opinião expendida sobre o estado a que se chegou, não se pare ao menos uns instantes para pôr em causa, ou no mínimo questionar, o sistema capitalista que está na origem da situação em que vivemos.

Este é um tempo em que todos os impossíveis podem acontecer. Até o que sucedeu agora aos antigos trabalhadores da Mundet, que após 23 anos à espera de serem ressarcidos dos créditos a que tinham direito – mais de um milhão de euros, no total – viram o Tribunal da Relação de Lisboa atribuir-lhes cerca de 0,8 por cento desse montante (nove mil euros), o que em termos individuais se traduz em indemnizações que vão dos 26 cêntimos aos 30 euros. Repete-se: dos 26 cêntimos aos 30 euros. Ao fim de quase um quarto de século à espera! Sobrevivendo como foi possível. Ficando muitos deles pelo caminho.

Este é o tempo em que o mesmo Tribunal da Relação de Lisboa atribuiu aos restantes credores da Mundet – banca privada e Caixa Geral de Depósitos – valores superiores a cinco milhões de euros. A esta indignidade chama-se Justiça. A balança está lá, mas os pratos estão desequilibrados, pendendo sempre para o lado dos poderosos.

Este é o tempo em que histórias obscenas como a da Mundet não fazem manchete, não vá dar-se o caso de incomodar os «amorins» da república das bananas em que Portugal se tornou... ou de os oprimidos acharem que já basta e que este é também o tempo da revolta.



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