Colocando o Cosmos no lugar do «Céu»

Manuel Gouveia

No dia 12 de Abril de 1961 a Humanidade colocava-se pela primeira vez em órbitra sobre o planeta onde se desenvolveu. Chamaram-lhe a entrada na Era Espacial, marcando um novo salto na capacidade que os Homens revelam de tornar reais sonhos que às anteriores gerações pareceram impossíveis.

O homem que protagonizou esse acontecimento era soviético, cidadão da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, militante do Partido Comunista e chamava-se, como sabemos todos, Yuri Gagárine.

O socialismo foi o primeiro a levar o Homem ao Espaço; o capitalismo foi o primeiro a levar a guerra ao Espaço

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Mas como todo o progresso humano este foi um acto social. Nenhum homem se coloca a si próprio no Espaço. Na esmagadora maioria das publicações sobre o aniversário deste evento optou-se por colocar o foco sobre Gagárine(*), lateralizando a questão central: a sociedade soviética.

A sociedade que colocou Gagárine em órbitra era uma sociedade socialista, que há apenas 44 anos retirara do poder as classes exploradoras, e partira à pioneira construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados. Uma sociedade que nesses 44 anos sofreu múltiplas agressões externas, a maior das quais a agressão nazifascista, mas encontrou as energias para superar todas as imensas dificuldades colocadas ao novo pelo velho e elevar um país atrasado e miserável à condição de inaugurar a Era Espacial – e fê-lo sem capitalistas e sem capitalismo, numa sociedade onde a propriedade social dos meios de produção garantia um ritmo de crescimento económico único na história, e onde o poder dos trabalhadores se edificava assente na democracia soviética.

E o próprio Gagárine – nascido em 1934 num solkose, filho de trabalhadores agrícolas, irmão de soviéticos raptados pelos nazi-fascistas para serem usados como escravos ao serviço do capitalismo alemão, oficial do glorioso exército vermelho, formado nas escolas soviéticas, deputado aos sovietes – é bem o exemplo do cidadão soviético, produto e construtor da sociedade socialista.

 

Do sonho à vida

Durante milénios a Humanidade encarou o cosmos como espaço para os deuses. A possibilidade de que um homem pudesse orbitar o planeta não era sequer sonhável. Essa limitação resultava da ignorância da realidade material. Foi preciso que a humanidade adquirisse suficiente conhecimento cientifico para ser possível sonhar, e capacidade produtiva e cientifica para concretizar esse sonho – para desenhar uma máquina que vencia a gravidade foi preciso conhecer as leis da gravidade, para pensar orbitrar a Terra foi preciso descobrir que a Terra era orbitrável e não plana. Criada a possibilidade de sonhar, a Humanidade colocou-se a caminho para concretizar o sonho. A Sputnik, a Laika, a Soyuz, Gagárine, a Mir, a Apolo, são nomes marcantes dessa caminhada do Homem para o Cosmos, que hoje encaramos com a mais absoluta naturalidade.

Os soviéticos que em 1961 ergueram Gagárine ao Cosmos participavam numa epopeia ainda maior – erguer, pela primeira vez na História, uma sociedade socialista. Durante milénios de sociedades assentes na exploração e na opressão, os homens resistiam e lutavam, mas sem sequer colocar-se a si próprios a tarefa de retirar do poder as classes exploradoras. O Estado era reserva absoluta dos senhores e dos deuses. Em 1917 o proletariado russo adquirira a capacidade de sonhar a sua libertação, o marxismo dotara-o dos conhecimentos científicos necessários e o Partido Bolchevique e os Sovietes eram poderosos instrumentos que desenvolvera para se libertar. Mas – qual Gagárine na Vostok1 aguardando o lançamento – lançava-se a uma tarefa nunca antes concretizada.
Durante milénios, os ricos e poderosos haviam imposto (ainda impõem!) às massas a sua ideologia – «sempre houve ricos e pobres», «sem nós, seria a anarquia e o caos» – através dos seus padres, dos seus filósofos, dos seus professores, (hoje, dos seus analistas, dos seus jornalistas) aplicando sempre  ao  seu serviço o domínio dos mecanismos de formatação ideológica. E quando os proletários adquiriram a capacidade de sonhar a sua própria libertação e se colocaram a caminho, encontraram a mais feroz repressão pela frente.

Os soviéticos ergueram esse Estado «impossível», proletário, e cometeram a «impossível» tarefa de o defender durante 74 anos. Marx classificara a tentativa de construir o primeiro Estado Proletário da história da Humanidade – a Comuna de Paris – como um «assalto ao céu». Os filhos da Comuna, os operários soviéticos, levaram-lhe as palavras de forma literal, e com uma determinação colectiva nova na história, colocando o Homem no «céu», colocaram o Cosmos no lugar do «céu».

A URSS, realidade complexa e contraditória, construção heróica e colectiva do povo soviético, deixou-nos, às actuais gerações de revolucionários, um imenso legado, que nenhuma derrota apaga. E o maior legado é a demonstração histórica de que é possível organizar uma sociedade sem exploradores, colocando-nos na época da transição do capitalismo para o socialismo.

Da mesma forma, o projecto espacial soviético continuou depois de 1961. Como todo o progresso, não sem erros, retrocessos ocasionais e mártires. E em 1986 a primeira estação orbitral permanente era colocada no Espaço, transportando consigo um palavra muito querida ao povo soviético, MIR –  PAZ(**)!

 

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Propaganda

Nada é neutro na luta de classes. A forma como se aborda este feito universal também não o poderia ser. Os servos do capital, fazendo a propaganda da ideologia burguesa, apresentaram (e apresentam) qualquer tentativa de análise objectiva e séria da revolução soviética como propaganda comunista. Devemos sem qualquer hesitação usar o nosso direito à propaganda. E o facto, universalmente reconhecido, de ter sido a URSS a colocar o primeiro homem no Cosmos serve para desmascarar muita da propaganda anti-comunista, e para fazer propaganda do projecto comunista.   

Em 1961, a opressiva máquina de formatação ideológica do imperialismo fora (ainda é!) capaz de transformar uma epopeia da dimensão da vitória soviética sobre o nazi-fascismo num acontecimento lateral da história da II Grande Guerra, apresentando-a como uma casualidade explicada pelo frio e pela lama. Fora capaz de disfarçar a agressividade imperialista na sequência do pós-guerra (Hiroshima, invasão da Grécia, criação da NATO, invasão da Coreia) vendendo-a como os esforços de paz perante uma ameaça vermelha todos os dias diabolizada. 

Em 1961, o imperialismo, lançado na guerra fria, soterrava os povos do mundo inteiro com uma pilha de mentiras sobre a URSS (como soterra hoje!). Milhões de oprimidos pelo capitalismo viam (vêem!) a URSS como um imenso campo de concentração, onde uns seres macambúzios e maus mantinham um povo escravo na miséria e na opressão, e alimentavam o seu progresso científico com batalhões de espiões que lhes vendiam os sucessos do capitalismo.

É neste cenário, que do céu, incontornável, luminoso, verdadeiro, surgiu o rosto sorridente de Gagárine, a informar a humanidade que «A Terra é Azul!», e que o Homem dera mais um passo de gigante na conquista do Cosmos. Não será esquecido!

______________

 

(*) E, quase sempre, soterrando o próprio Gagárine sobre uma pilha de falsificações e preconceitos anti-comunistas.

 

(**) Em nota de rodapé, e a propósito de paz, lembrar esta dicotomia: o socialismo foi o primeiro a levar o Homem ao Espaço; o capitalismo foi o primeiro a levar a guerra ao Espaço.



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