- Edição Nº1941  -  10-2-2011

<i>Deolinda</i>

Deolinda é o nome de um original projecto musical português inspirado pelo fado e pelas suas origens tradicionais, centrado na figura de Deolinda, personagem imaginária, transversal à música popular portuguesa, que tem dado a conhecer, na opinião de muitos, algumas das mais interessantes canções dos últimos anos.

Formados em 2006, foi em 2007 que tivemos o prazer de os receber na Festa do Avante!, visita que repetiram em 2010 e que confirma a Festa como espaço único e imprescindível para a afirmação da música e da cultura portuguesas.

A alegria e originalidade das suas músicas cruzaram-se entretanto com muitas lutas e batalhas que temos travado, enriquecendo assim uma vastíssima experiência de associar a intervenção artística à luta por uma vida melhor. Confirmando que a música, como forma de intervenção, está longe de estar amarrada a um género musical, ou a um período historicamente confinado, antes se projecta – e ainda bem, acrescento – para a actualidade em novas formas e condições.

E foi sem surpresa que vimos o enorme impacto que tiveram os seus espectáculos nos Coliseus de Lisboa e Porto há pouco mais de uma semana, em particular a estreia da sua nova música «Que parva que eu sou» onde encontramos a denúncia crua da situação que atinge hoje grande parte da juventude.

A imediata e sentida adesão à canção por parte de milhares de jovens decorre de uma genuína identificação com a «geração sem remuneração», da «geração casinha dos pais», deste «mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar». Deolinda fala do desemprego em massa, da praga da precariedade, dos recibos verdes, dos baixos salários, do preço da habitação, da ausência de perspectivas quanto ao futuro, do adiamento de um projecto de vida, da frustração e angústia que atinge as novas gerações.

À identificação destes problemas Deolinda associa a atitude inconformista de quem considera e canta «que esta situação dura há tempo de mais», que é tempo de lutar e dizer basta acrescentamos nós.

As canções não substituem a luta dos trabalhadores ou da juventude, mas andam muitas vezes de braço dado a construir e a abrir os caminhos do futuro.


Vasco Cardoso