• João Ferreira

Comentário
Cenas de um ano em trabalho

1. O cenário convidava mais ao recolhimento e ao descanso do que àquilo que ali nos levara. Sobretudo depois de uma manhã de trabalho que começara bem cedo, ainda noite. O frio, o vento e a chuva intermitente – sob os quais decorria a conversa – emprestavam ao mar a cor escura, metálica, que se prolongava no céu, e imprimiam-lhe uma agitação que dispensava muitas das palavras que íamos ouvindo. Tinha sido a falta de condições de segurança do porto (se é que lhe podemos dar esse nome) que ali nos levara. Falámos da insegurança e do risco que marcavam o dia-a-dia dos homens que enfrentavam aquele mar num combate manifestamente injusto e desigual. Falámos também do que os empurrava para esse combate: da falta de rendimentos para sustentar as famílias; do preço de primeira venda do pescado cada vez mais baixo; do preço dos combustíveis cada vez mais alto; do peixe que chegava durante a noite, não do mar mas de terra, de Espanha e de outras paragens, esmagando-lhes os preços do peixe na lota...

2. Ali se produz, dizem-nos, o melhor azeite do mundo. Anos de regimes de produção extensiva, com cultivo de variedades tradicionais autóctones, sob as características climáticas e de solo que só ali existem, tudo combinado com a sabedoria e o trabalho das gentes, muitos outrora, hoje poucos e envelhecidos. O resultado: um produto de altíssima qualidade, mas que cada vez mais dificilmente assegura a quem vive do trabalho de o produzir uma vida digna e perspectivas de futuro na terra que é a sua. A pequena e média propriedade, a agricultura familiar, vão assim desaparecendo, à medida que cresce, por um lado, a terra ao abandono, o pasto para incêndios e, por outro lado, a grande propriedade, com regimes de produção intensiva e muito intensiva, com custos de produção significativamente inferiores e com qualidade do produto final e respeito pelo ambiente a condizer. É a chamada agricultura «competitiva», que a UE e a sua PAC querem a todo o custo promover…

3. Às 8h30 da manhã, já a fila ia longa. Lá dentro, dezenas de trabalhadores aguardavam a sua vez de cumprirem uma rotina, uma e outra vez repetida: a de fazer prova no centro de emprego da sua condição de desempregados. São cada vez mais. Nas conversas, cá fora, corre que os empresários da região começaram a cobrar cinco euros a cada desempregado pelo carimbo que atesta a «procura activa de emprego», condição para o subsídio. Um grupo de operárias têxteis, jovens, recém-despedidas, recém-desempregadas, ao contrário da maioria dos outros que por ali se encontram, dá-nos conta do último fenómeno na região: o despedimento de trabalhadores com vários anos de casa e a sua contratação, poucos meses depois, para ocuparem o mesmo posto de trabalho na mesma empresa, mas desta feita por via de empresas de trabalho temporário, com contratos de alguns meses que alternam com o desemprego. Mais a Sul, é à porta de duas multinacionais – das que acabaram por encerrar unidades de produção em Portugal e rumar a outras paragens, deixando um rasto de desemprego e de desesperança no caminho – que contactamos com os trabalhadores, também eles «temporários», na sua esmagadora maioria. E jovens, tão jovens, que por vezes mais parece estarmos à porta de uma escola secundária. Contratados para fazerem o mesmo que outros, entretanto despedidos, antes faziam...

 

Jornadas concluídas, jornadas que continuam

 

É impossível verter nesta coluna a enorme riqueza que encerra a experiência de trabalho desenvolvida ao longo deste último ano, a sua diversidade e os seus frutos. Em Fevereiro de 2010, os deputados do PCP no Parlamento Europeu iniciaram, no distrito de Setúbal, as primeiras «jornadas de trabalho no País» desta legislatura. Desde então, foram percorridos todos os distritos e as regiões autónomas dos Açores e da Madeira, num roteiro que terminou este mês, no distrito de Castelo Branco. No total, foram mais de duas centenas e meia de iniciativas, de âmbito e alcance muito diversificados, em permanente diálogo com os trabalhadores e as populações, com agricultores, pescadores, pequenos e médios empresários, estudantes, dirigentes associativos, autarcas e outros. Trabalho inserido na actividade geral do Partido e que articulámos com a intervenção em Bruxelas e em Estrasburgo, numa relação dialéctica fecunda em que o trabalho e a luta de cá deram sentido e substância às batalhas travadas lá, e em que estas últimas apoiaram e estimularam os primeiros. Trabalho e luta que, como não poderia deixar de ser, continuam!



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