• Manuel Augusto Araújo

Uma frente de luta política

Uma nova ordem económica impõe-se com violência crescente. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Megas pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum, excepto a lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. Para essa nova ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais, e dos novos, proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano medido pelo número de espectadores, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia e a personalidade do artista transformada numa marca, garante o valor da mercadoria artística.

Paralelamente a uma ofensiva sem precedentes aos direitos económicos e sociais, conquistados em séculos de duras lutas, promove-se a alienação do homem pela impiedosa fragmentação do sujeito. O reflexo nas artes é o triunfo do pastiche sobre a ironia e mesmo a paródia.

Os efeitos são brutais. Depois de anos de instabilidade, em que sucessivas recorrências aos movimentos modernistas adiaram o que se anunciava, o crescente poder e influência do mercado sobre as práticas culturais e artísticas consolidou-se com a deslocação dos centros de legitimação estéticos dos artistas para uma nova classe de intermediários que adquirem um enorme poder decisório. O parâmetro de aferição das artes passou a ser o mercado, pelo que são declaradas como obsoletas as vanguardas artísticas que, de forma directa ou oblíqua em unidade e conflito, estavam também empenhadas em transformar a vida. Actualmente navega-se numa amálgama indistinta da arte com a moda, com a produção de pseudo acontecimentos alinhados pelos mecanismos publicitários em que a afirmação enfática da marca é bastante para nomear uma realidade incomparável, onde a procura de originalidade se transforma na confissão parcial de não-originalidade, mascarada pela erupção constante de novidades que, invariavelmente, acabam por se revelar requentadas.

A arte tende a dissolver-se na moda, a qual embota e apaga a força do real, dissolve a radicalidade, normaliza e homogeneíza todas as coisas num espectáculo generalizado. Uma fábrica de provocações frustres procurando assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque é meramente casual onde, dirá Kundera, “tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido”.

Não foi nem é um acaso que a exacerbação dos formalismos, a sua forçada e falsa autonomização em relação aos movimentos sociais e políticos, traça o seu próprio destino acabando inexoravelmente na utilização publicitária do trabalho sobre a forma. Em paralelo a crítica e a autocrítica, quando é séria e inteligente, presume com angústia que perdeu significado. Aliás, as desmistificações da rede de interesses económicos que domina o mercado e impõe, com arrogância ou manhosamente, os seus ditames por mais sérias e credenciadas que sejam, são sistematicamente remetidas para nichos onde se espera fiquem sepultadas. É o triunfo do economicismo puro e duro que se torna particularmente repugnante quando esconde atrás das cortinas da exaltação retórica de um idealismo estético, em que ninguém acredita, o mercado de bens de luxo que de facto comanda os destinos da arte.

Contraditoriamente, nos últimos decénios as artes beneficiaram de patrocínios e investimentos não comparáveis com qualquer outra época histórica. Nunca se transaccionaram tantos mestres consagrados, nem tantas obras contemporâneas, nunca se editaram tantos livros, construíram tantos museus, teatros, casas da música, subvencionaram e encomendaram espectáculos dos mais variados géneros, nem proliferaram tantas instituições dedicadas às artes. Toda essa imensa actividade não teve, nem tem a menor influência no surgimento de uma arte em correspondência com as realidades sociais, económicas e políticas. Os mais lúcidos teóricos como Herbert Read, John Berger, Mario Perniola, Raymond Williams, Manfredo Tafuri ou Frederic Jameson consideram que uma das maiores tragédias da nossa civilização actual é o facto da sensibilidade humana que noutras épocas se reproduzia em actividades artesanais de onde emergiam os grandes visionários, ser hoje totalmente sufocada ou encontrar saídas patéticas nalgum passatempo trivial.

Marcar o reencontro da arte e da sociedade para que a arte se volte a apropriar do mundo é, nos dias de hoje, uma das frentes de luta política contra o neoliberalismo que aliena o ser humano despojando-o da sua humanidade, que separa o homem individual da sua individualidade que anuncia a morte da arte mesmo quando parece protegê-la ou mesmo exaltá-la.



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