• Correia da Fonseca

Aula de cirurgia

Eram seis, três de cada lado. Todos cirurgiões, embora uns mais que outros. Ou talvez não, talvez um deles estivesse ali mais inclinado a preconizar outra forma de tratar o paciente, em democracia é preciso que se inclua um parecer discordante, mas desde que fique claro que se trata de uma opinião minoritária, convocada para a reunião de sábios precisamente para isso, para ser minoritária e nessa condição reforçar sólida razão que assista à maioria. Era, pois, no mínimo, uma sólida maioria de cirurgiões, e por isso a sentença de cada qual convergia com as dos restantes na unanimidade acerca da necessidade de cortar. Em boa verdade, não chegaram a ser muito explicitamente expressos os lugares onde as lâminas cirúrgicas devem penetrar o corpo do País, isto é, do povo, pois bem se sabe que o País é o povo e o resto é paisagem; mas talvez essa minúcia fosse dispensável por já muito bem se saber, graças a anteriores reuniões de sábios e também às sabedorias vindas de longe, o que deve ser cortado, amputado, eliminado. Quanto a anestesias, não estava por ali nenhum especialista da área, mas essa matéria é de tal modo conhecida e está já tão implementada na prática que porventura nem vale já a pena falar dela: está a cargo dos grandes agentes mediáticos, estações de televisão e imprensa dita cor-de-rosa, campos de futebol, ocasionais eventos complementares. É certo que nem sempre a eliminação da dor, ou pelo menos a sufocação dos gritos, é perfeita, e por isso mesmo há quem exprima alguma preocupação sobre este aspecto da operação. Mas logo alguma voz, ou muitas delas, se ergue a insistir que cortar é preciso, gritar não é preciso, e daí claramente se infere a decisão de prosseguir e aprofundar os cortes da cirurgia segundo as instruções recebidas em língua estrangeira, quase sempre a alemã, que é a que está agora na moda. E os sábios portugueses, sempre de adequada formação em cirurgia ainda que em diversos graus e sectores, dos quais só ali estava na segunda-feira um restrito grupo, logo repetem recomendações e métodos para que de eventuais oposições não reste pedra sobre pedra, digamos assim. Para tanto, a entrada no palco onde decorrem as lições é rigorosamente seleccionada, e eventuais diferenças entre as vozes que ali se façam ouvir não devem ir tão longe que possa ficar prejudicada a certeza de que ali se afirma a única e indiscutível verdade, remetendo-se alguma dissonância adequadamente leve, e sempre expressa no peculiar latim em uso nestes simpósios, para a função meramente decorativa que ateste a democraticidade da /aula.

 

Lotação limitada

 

Desta prosa de ironia tosca e mal amanhada, saída assim não só por inépcia natural mas também porque o assunto não é propício à emergência de humor saudável e bem-disposto, já se terá entendido que se refere à emissão de segunda-feira passada do programa «Prós e Contras». Falta assinalar a única presença feminina em palco, a da jornalista a exercer as funções de dona da casa e a quem, se persistirmos na metáfora de duvidoso gosto que invoca aqueles supertécnicos como se fosse um grupo de cirurgiões, podemos atribuir as funções de instrumentista em bloco cirúrgico: a ela competia, de facto, a distribuição do material de intervenção que na circunstância era a fala, em cada participante diferente mas idêntico no essencial salvo naquele caso já assinalado e que muito convinha para garantir a diversidade mínima e a credibilidade da conferência. De qualquer modo, o importante é sublinhar que ali pouco ou nada se falou do sangue que a cirurgia recomendada irá fazer correr, das atrozes dores que nenhuma anestesia poderá eliminar, e entende-se que assim tenha sido: o propósito da sessão era o de preparar o paciente para sofrer com passividade e resignação. Para maior eficácia, a linguagem adoptada foi sempre a do economês, dialecto não acessível ao comum das gentes e que por isso afugenta os lamentos e protestos de criaturas sem especial qualificação. Aliás, foi sintomático que o inicial pretexto para a reunião, uma análise aos resultados eleitorais da véspera, depressa tenha sido substituído por reiteradas recomendações à unidade dos que só aparentemente haviam sido considerados como contrários, por apelos à confiança entre os que devem sofrer os golpes da cirurgia e os que com eles verão garantida a perenidade do seu bem-estar. Percebe-se: é sofrendo que se ganha o céu. E percebe-se mais: o céu tem lotação limitada, só lá cabem alguns. Os que desde há muito se habituaram a estar lá.



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