Comentário

Uribe: novo coice fascista

Pedro Campos

Em Fe­ve­reiro de 2003, Collin Powell, apre­sentou, pe­rante o Con­selho de Se­gu­rança da ONU, provas «ir­re­fu­tá­veis» sobre as armas de des­truição ma­ciça de Saddam Hus­sein para acabar com este mundo e outro. Para nos salvar dessa «ameaça», Washington in­vadiu o Iraque com o apoio da grande mai­oria dos go­vernos eu­ro­peus. Hoje é do co­nhe­ci­mento geral que essas armas não exis­tiam e também que o re­la­tório de Powell foi co­piado, em grande parte, de um tra­balho aca­dé­mico de um tal Al-Ma­rashi, que o tinha pu­bli­cado meses antes na re­vista Middle East Re­view of In­ter­na­ti­onal Af­fairs. Não ana­li­sava a si­tu­ação a si­tu­ação de 2003, mas sim a de 1990.

Agora é a vez de o nar­co­tra­fi­cante Uribe Velez(1) apre­sentar as suas provas «ir­re­fu­tá­veis» do apoio do go­verno ve­ne­zu­e­lano aos mo­vi­mentos guer­ri­lheiros da Colômbia, que nas­ceram antes de Hugo Chávez vir ao mundo! Um au­tên­tico coice fas­cista deste in­di­víduo sór­dido da oli­gar­quia la­tino­-ame­ri­cana poucos dias antes de en­tregar a Casa de Na­rinho ao novo pre­si­dente. Uma pro­vo­cação e uma forma de im­pedir a nor­ma­li­zação das re­la­ções entre a Ve­ne­zuela e a Colômbia? Tudo isso e também um passo mais na di­recção de jus­ti­ficar uma in­ter­venção mi­litar de Washington contra o go­verno de Ca­racas.


Um em­bai­xador à al­tura da men­sagem
 


Para vei­cular a sua «de­núncia» no seio da OEA – que con­tinua a re­pre­sentar mi­se­ra­vel­mente o papel de Mi­nis­tério das Co­ló­nias dos Es­tados Unidos – Uribe es­co­lheu a fi­gura do em­bai­xador Luis Al­fonso Hoyos. O nar­co­pre­si­dente não podia ter op­tado por «me­lhor» em­bai­xador. Se­gundo no­tícia pu­bli­cada num dos prin­ci­pais jor­nais da Colômbia – El Es­pec­tador(2) – Hoyos tem contas pen­dentes com a jus­tiça co­lom­biana desde os anos 90. Em 2001 o Tri­bunal Cons­ti­tu­ci­onal con­firmou que es­tava le­gal­mente im­pe­dido, por vida, de para de­sem­pe­nhar cargos de eleição po­pular. Razão? «Uti­li­zação in­de­vida de di­nheiros pú­blicos». Hoyos, que era membro do con­gresso, passou a fazer fretes destes e foi cer­ta­mente pela sua «qua­li­dade moral» que Uribe Vélez o co­locou ao seu ser­viço em 2002, dois dias após a sua to­mada de posse como pre­si­dente. Mas, além de la­drão, Hoyos tem também ga­lões de in­com­pe­tente. O seu tra­balho à frente de Acção So­cial, um dos or­ga­nismos mais im­por­tante do go­verno in­cum­bido de velar pelos des­lo­cados pela vi­o­lência po­lí­tica que mar­ti­riza a Colômbia há vá­rias dé­cadas, mo­tivou a sen­tença T-025 de 2004, que o obriga a ela­borar re­la­tó­rios sobre os pro­gressos na «pro­tecção destes grupos vul­ne­rá­veis». Os do­cu­mentos de Hoyos não têm me­re­cido a apro­vação do Tri­bunal, que in­siste no «sen­tido de que ne­ces­sita provas de re­sul­tados mais con­tun­dentes».

Hoyos, além de in­tervir nos as­suntos in­ternos da Ve­ne­zuela, acusou Ca­racas de per­mitir a pre­sença de forças guer­ri­lheiras em ter­ri­tório ve­ne­zu­e­lano. E apre­sentou provas «ir­re­fu­tá­veis», apoi­adas em fo­to­gra­fias, al­gumas delas gros­sei­ra­mente ma­ni­pu­ladas. A Hugo Chávez não ficou outro ca­minho que romper com o re­gime de Uribe Vélez, que assim deixa uma ba­tata es­cal­dante nas mãos do seu su­cessor, Juan Ma­nuel Santos, igual­mente fi­gura de proa da re­acção de Bo­gotá e também homem da Casa Branca, com vá­rios crimes às costas.


Uma prova que não se aguenta no tempo


Uma das provas «ir­re­fu­tá­veis» apre­sen­tadas por Hoyos – para grande es­panto da gente pen­sante, o go­verno uri­bista sabe exac­ta­mente onde estão as guer­ri­lhas em ter­ri­tório ve­ne­zu­e­lano, mas não é capaz de as lo­ca­lizar dentro do seu pró­prio país – é uma fo­to­grafia re­cente onde apa­rece o re­vo­lu­ci­o­nário do­mi­ni­cano Isa Conde. O vi­sado já de­clarou que a imagem não é de agora, mas sim de 2006. Que foi to­mada em zona co­lom­biana e não na Ve­ne­zuela.

Numa carta que não che­gará aos grandes maios de co­mu­ni­cação, Isa Conde de­nuncia que é tudo «parte de uma ma­nobra para pro­pi­ciar a agressão mi­litar dos Es­tados Unidos contra o pro­cesso li­ber­tador ve­ne­zu­e­lano, a de­ses­ta­bi­li­zação de Chávez e fa­ci­litar a con­quista mi­litar da Ama­zónia». Esses mesmos grandes jor­nais, es­ta­ções de rádio e de te­le­visão, e os que neles pon­ti­ficam como novos orá­culos, também não se per­gun­tarão por que razão há na Ve­ne­zuela, onde vive em paz, uma co­mu­ni­dade de mais de quatro mi­lhões de co­lom­bi­anos emi­grados, uns por ra­zões de mi­séria, ou­tros para fugir à vi­o­lência do dia a dia co­lom­biano.

 



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