• Jorge Messias

Paraísos fiscais e infernos humanos
Desde sempre, poetas e marinheiros têm cantado as belezas naturais da Madeira: «a Madeira é um jardim». Não há dúvida de que assim é mas em tudo, mesmo na natureza, «uma mão esconde a outra mão». Em poucos instantes, o inferno pode instalar-se no paraíso. Foi o que aconteceu na Ilha da Madeira. Uma tragédia cujas causas ainda mal se conhecem. Mas também, «a Madeira é do Jardim». Alberto João Jardim tem consciência de que assim acontece. Demagogo, populista e autoritário, desde há muito que sabe puxar os cordelinhos da simpatia popular, dos apoios da Igreja e dos malabarismos político-partidários. Veio a desgraça ao povo madeirense pobre e ele soube defender a imagem pública de um anjo tutelar rico. Mandou limpar as ruas e silenciou as suas pesadas responsabilidades no ordenamento do território. Chamou a si a contagem dos mortos e escondeu-os num montão de palavras, tal como Salazar o fez outrora com as grandes cheias de Lisboa e do Ribatejo. Exibicionista, Jardim não hesitou em comparar-se ao Marquês de Pombal: «agora é preciso enterrar os mortos e cuidar dos vivos». Não foi por acaso que Jardim puxou o lustro a esta imagem. Ele bem sabe que se aproxima o grande momento da reconstrução e dos negócios chorudos. Virá bom dinheiro da Comunidade Europeia. Não tanto como dizem, mas virá. E quem morreu, morreu. Foi tudo gente pobre, cidadãos de segunda. Graças a Deus, o turismo – a alavanca do dinheiro – passou o dilúvio sem um beliscão. A catástrofe em breve será esquecida e não faltarão as multidões de turistas e rodos de dinheiro. Os offshores não serão extintos e prosperarão. As matas transformar-se-ão em campos de golfe. As casas abarracadas dos emigrantes cederão o espaço a luxuosas mansões. A grande reconstrução beneficiará os ricos. Embora uma pequena fatia do dinheiro seja atribuída aos pobres, para os calar. Mas devem ser mantidos no seu lugar. É sem dúvida necessário que aumente a distância entre pobres e ricos e ela está garantida e será alargada. Todas as palavras de Jardim e de um círculo restrito são cuidadosamente estudadas. A reconstrução permitirá a redenção dos mercados. A Madeira-jardim ressuscitará. Haverá paz social. Prova é que a banca já doou generosamente milhões ao povo da ilha, movida por sentimentos de solidariedade. É preciso, portanto, ter fé no futuro. Dois grandes aliados de Jardim A solidariedade e o espírito caritativo já produziram um milagre, reconciliando dois irmãos desavindos. A catástrofe teve o condão de pacificar as relações entre Jardim e Sócrates. Através deste novo milagre entre as ruínas, PS e PSD voltaram a procurar-se. Estão ambos de acordo no fundamental: a ressurreição da Madeira far-se-á através do turismo, da banca e dos offshores; depois, o bom entendimento entre os dois políticos projectar-se-à num bom entendimento entre os partidos. Estão em jogo milhões de milhões, monumentais obras públicas, a dinamização da zona franca e um fluxo constante de verbas comunitárias. E é possível, através de sucessivas alianças, salvar Sócrates, fortalecer o poder de Jardim e eternizar o governo dos mais ricos. Este projecto conta ainda com um outro trunfo, o da participação da Igreja. A intervenção católica é insubstituível para desmobilizar as esperadas reacções populares. Por isso nota-se, à vista desarmada, que a linguagem política de Sócrates e dos seus amigos está repleta de conceitos e expressões importadas da doutrina social da Igreja. E, como «amor com amor se paga», em contrapartida todas as opiniões que se vão ouvindo aos bispos servem como uma luva às intenções da direita e dos grandes patrões. No caso do dilúvio da Madeira, para melhor servir as estratégias capitalistas de bastidor, o clero católico não hesitou mesmo em recorrer aos métodos de antanho do apagamento da razão. Citou casos miraculosos, mulheres que sobreviveram rezando o terço, igrejas destruídas onde só a imagem da Virgem se salvou, crucifixos intactos entre destroços, etc. A Igreja chegou ao cúmulo de saltar milhares de quilómetros para, em Paris, onde existe um forte núcleo de emigrantes madeirenses, dizer missa, pregar a resignação e louvar a intervenção dos poderes políticos regionais e centrais. Tudo aponta no sentido de estarmos a caminhar para a possível reposição do Estado corporativo regido pela divisa, tão grata aos salazaristas, «Deus, Pátria e Família». O Portugal da Concordata de 1940. Impõe-se cerrar fileiras e resistir.


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