• Natacha Amaro

Comentário
As mulheres e a paz
Há uma semana realizou-se em Bruxelas uma conferência subordinada ao tema «Mulheres, paz e segurança», organizada pela Comissão Europeia e pela Agenda de Segurança e Defesa (ASD), a propósito do 10.º aniversário da resolução 1325 das Nações Unidas sobre esta matéria. Participaram, entre outras oradoras, María Teresa Fernández de la Veja, primeira vice-presidente do governo de Espanha, país que actualmente detém a presidência do Conselho da UE, Madeleine Albright, a famigerada ex-secretária de Estado norte-americana, e Margot Wallström, vice-presidente da Comissão Europeia, bem como o secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen.

Os promotores

É interessante constatar que as várias notícias classificaram esta conferência como uma iniciativa da UE com a NATO... O que não é de estranhar dado o elenco. A ASD é um «grupo de reflexão» sobre segurança e defesa, sediado em Bruxelas, que regularmente reúne altos representantes da NATO e de instituições europeias com representantes de governos, empresários, ONG’s, comunicação social internacional, universidades, entre outros. Tem como objectivo «antecipar a agenda política e focar a atenção nos desafios e políticas de segurança e defesa europeia e transatlântica». Tem como «patronos» Jaap de Hoop Scheffer, ex-secretário-geral da NATO, Benita Ferrero-Waldner, comissária europeia das Relações Exteriores, e Javier Solana, alto representante da UE para a Política Externa e de Segurança Comum. Cada um tire as suas ilações destas relações, objectivos e apoiantes.
Previa-se que a Comissão Europeia fosse representada pela vice-presidente e alta representante da UE, Catherine Ashton, que, à última hora, teve que ir a uma conferência extraordinária sobre o Iémen (valores mais altos se levantaram...) Foi substituída por outra vice-presidente que reafirmou os compromissos da UE sobre «o apoio à integração da igualdade de género» nas estruturas de paz e segurança e «à participação das mulheres na mediação e resolução de conflitos».
O secretário-geral da NATO também alinhou o discurso pela integração da igualdade de género, mas de forma a «melhorar as capacidades da Aliança», «para que se cumpra a resolução 1325 e outras conexas em particular no Afeganistão e nos Balcãs», e se incentive o trabalho «com os associados da NATO na reforma da defesa e desenvolvimento das instituições de defesa para promover a aplicação da resolução 1325 e posteriores resoluções em toda a zona euroatlântica». Ou seja, a propósito de uma resolução da ONU e das mulheres, um dos senhores da guerra confirmou os grandes cenários mundiais em que se move a NATO e as intenções expansionistas de crescentes e agressivas acções militares. A pretexto da igualdade de género!

Os objectivos
Neste ano, a NATO realiza uma cimeira em Portugal em que certamente procurará acentuar o seu carácter militar profundamente agressivo, ao serviço esmagadoramente dos interesses estratégicos norte-americanos, com a subserviência e os meios humanos, técnicos e financeiros de muitos países europeus. A conferência realizada insere-se no rumo para essa cimeira, revelando (para quem tivesse dúvidas) as intenções de aprofundamento da presença e acção hegemónica da aliança atlântica, mas carregando consigo o fardo de, demagogicamente, lhe associar as mulheres e os seus contributos para a paz. Insistindo na propalada igualdade de género, fazem-se propostas para aumentar a presença feminina em postos de direcção (incluindo militares), dar mais atenção às necessidades das mulheres nos «cenários pós-conflito», apoiar a participação feminina na mediação e resolução de conflitos.
A relação entre as mulheres e a paz é universal, histórica, natural e verdadeira. Gerações e gerações de mulheres contestaram a guerra, defendendo o valor intrínseco da paz e da vida humana. Milhares de mulheres em todo o mundo fizeram ouvir a sua voz contra as duas guerras mundiais, a guerra do Vietname ou as armas nucleares. Mais recentemente, os Balcãs, o Iraque ou o Afeganistão foram o triste mote para manifestações, concentrações, denúncias e exigências de mulheres em todo o mundo. Pela paz!
É positivo haver resoluções e conferências sobre a mulher e a paz mas a melhor forma de fazer essa associação é tomar medidas concretas, definitivas e sérias para o fim das guerras, respeitando os direitos humanos, o direito internacional, a soberania dos povos e a vida humana. E não procurar medidas ou apoios para «integrar perspectivas de género» em concepções belicistas, violentas e agressoras que as mulheres sempre repudiaram.
Paz sim, guerra não. Muito menos em nome das mulheres.


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