Editorial

«Com a aproximação do OE essa fase da representação está a chegar ao fim»

A FARSA E OS FARSANTES

Fingir ser oposição a uma política com a qual se concorda no essencial, parece, à primeira vista, tarefa de (quase) impossível concretização.
Mais ainda se a farsa se prolonga no tempo de forma contínua, alternando com os dramáticos momentos de verdade, isto é, os momentos em que os farsantes materializam o apoio, de facto, a essa política.
Na verdade, só uma muito grande capacidade histriónica, aliada a uma incomensurável desfaçatez, permite aos protagonistas da farsa levá-la a cabo com êxito.
É o que acontece com os partidos da política de direita - PS, PSD e CDS/PP – que, insultando a inteligência e a sensibilidade de milhões de portugueses, andam nisso já lá vão quase trinta e quatro anos. Alternadamente, é claro, e de acordo com um esquema consabido e por todos aplicado fielmente: ao que está no Governo compete levar por diante a política que todos eles apoiam; aos que não estão no Governo compete fazer a rábula da «oposição», gritando muito e gesticulando ainda mais – para depois, nos tais momentos da verdade, metendo na gaveta gritos e gestos, cumprirem a tarefa de salvar a política de direita e assegurar a sua prossecução.
É claro que o êxito de tal representação só é possível pelo apoio de que desfruta na comunicação social dominante – esta, também, cumprindo a tarefa que lhe compete enquanto propriedade que é do principal interessado e mandante da política de direita: o grande capital.
E, como a realidade nos tem mostrado, esta encenação tem tido um papel crucial na manutenção da política que, desde 1976, tem vindo a flagelar os trabalhadores, o povo e o País e a encher os cofres dos grandes grupos económicos e financeiros.

Nos últimos meses temos vindo a assistir a uma das mais longas e bem encenadas representações levadas a cabo por esses partidos – sempre diligentemente assessorados pelos média dominantes.
Ouvindo os respectivos dirigentes – quer no decorrer das campanhas eleitorais do ano que passou, quer nos meses que se seguiram à perda da maioria absoluta pelo PS - dir-se-ia que os três defendiam políticas radicalmente diferentes e que profundas e insanáveis divergências os separavam.
Nada mais falso, como sabe quem, atento à realidade nacional, tem na memória décadas de representação da mesma farsa pelos mesmos farsantes – e como podem ficar a saber os mais distraídos, agora que, com o Orçamento do Estado à vista, essa fase da representação está a chegar ao fim e a dar lugar ao tal momento da verdade…
O «interesse nacional» que o Presidente da República, com os habituais tremidos de voz, invocou na sua mensagem de fim de ano, soou como uma espécie de campainha pavloviana que, por reflexo condicionado, pôs em salivação os três partidos da política de direita e a comunicação social dominante – os primeiros, manifestando a costumeira «vontade de diálogo; os média louvando essa «abertura» e chamando a depor os politólogos do costume, os quais, como de costume, «divergem profundamente em muitos aspectos» mas «convergem plenamente» num ponto, precisamente no ponto crucial: enaltecendo, todos, a consciência do «sentimento de sobrevivência», o que todos, de facto, querem dizer, e dizem, é que é preciso salvar a política de direita.
Para isso, invocam as sacrossantas inevitabilidades e as correspondentes necessidades: a inevitabilidade da exploração, a necessidade do «corte nos salários»; a necessidade de redução ou eliminação de «direitos laborais»; a necessidade do «prosseguimento das privatizações» do que resta nos sectores da Saúde e da Educação.

Com essas inevitabilidades e necessidades, o que tais politólogos pretendem é justificar ideologicamente o aumento da exploração e, assim, por um lado, fazer crescer cada vez mais os lucros dos grandes grupos económicos e financeiros e, por outro lado, fazer recair sobre os trabalhadores e o povo as consequências da política de classe do grande capital explorador e opressor.
Em resumo: o que pretendem, todos, é que a política de direita prossiga a sua obra de destruição – ao mesmo tempo que, em coro síncrono, proclamam, avisam, alertam e ameaçam que «o país está a viver acima das suas possibilidades».
Mas que «país» é esse que, segundo dizem, vive «acima das suas possibilidades»?: é o país dos cerca de 2 milhões de portugueses que vivem abaixo do limiar da pobreza?; dos mais de 700 mil desempregados, parte dos quais sem subsídio de desemprego?; das centenas de milhares de trabalhadores com vínculo precário, sujeitos às ameaças, às chantagens e às represálias e vítimas da mais brutal exploração?; dos 40% de trabalhadores por conta de outrem que têm salários abaixo dos 600 euros?...
Sublinhe-se: o que, acima de tudo, preocupa os ditos politólogos e quem lhes paga é – espalhando e impondo o conformismo, a passividade e a falsa ideia da inutilidade da luta - procurar impedir o desenvolvimento da luta das massas trabalhadoras, que sabem ser componente essencial para a ruptura e a mudança - e que, por isso mesmo, é necessário prosseguir, intensificar e ampliar, atraindo novos segmentos da imensa massa de trabalhadores e de todos os que são alvos preferenciais da política do Governo.
Porque, se é na luta que está a resposta necessária à política de direita e às suas consequências dramáticas para a imensa maioria dos portugueses, então é na luta que devem centrar-se as atenções e as preocupações dos trabalhadores e das suas estruturas representativas.
E nesse sentido, nunca é demais repetir que os trabalhadores, o povo e o País podem contar com o PCP. Hoje como sempre.


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