A fome mata uma criança a cada seis segundos
Cimeira da FAO
Prato vazio no combate à fome
Os 193 países membros da FAO adoptaram, segunda-feira, em Roma, uma declaração final que não fixa prazos, termos, quantidade e condições para combater a desnutrição crónica, adiando respostas a um flagelo que afecta mais de mil milhões de seres humanos.
«Comprometemos-nos a adoptar medidas destinadas a erradicar de maneira definitiva a fome», diz o documento aprovado. Mas o texto é, na prática, uma mera declaração de intenções, uma vez que os participantes se recusaram a fixar o ano de 2025 como data limite para a concretização desse objectivo, substituindo a meta concreta pela expressão «o mais cedo possível».
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura também exorta à «vigilância colectiva» sobre as medidas urgentes a tomar para reduzir para metade a percentagem e o número de pessoas com carências alimentares graves até ao final de 2015, porém tal representa apenas o sublinhar de um dos chamados Objectivos de Desenvolvimento do Milénio.
Os especialistas da FAO afirmam que nas actuais condições esse objectivo não será concretizado. Os dados disponíveis indicam que para debelar consideravelmente a fome que mata diariamente 17 mil crianças – uma a cada seis segundos – seria necessário investir 44 mil milhões de dólares em infraestruturas, tecnologia e equipamentos, soma bem mais modesta que a transferida pelos Estados para as mãos do grande capital afim de o salvar da crise sistémica em curso.
Na cidade italiana ninguém abriu os cordões à bolsa, ninguém se comprometeu em aumentar a ajuda à agricultura dos actuais 5 para os necessários 17 por cento, e os líderes das principais potências capitalistas não só não cumpriram a promessa feita em L'Aquila, a meio deste ano, de transferir 20 mil milhões de dólares para os países mais pobres, como primaram mesmo pela ausência. Excepção feita ao anfitrião, Silvio Berlusconi, cuja participação na Cimeira da FAO serviu de pretexto para não comparecer a um julgamento, em Milão, onde é acusado de fraude fiscal (ver pag. 21).

Negócio

As estatísticas da FAO estimam ainda que em 2050 o planeta deverá totalizar mais de 9 mil milhões de habitantes. Para alimentar esta imensa quantidade de seres humanos de acordo com os padrões mínimos fixados pela Organização, será necessário um aumento de 70 por cento da produção agrícola nos países subdesenvolvidos, e de 50 por cento nos países mais industrializados.
As conclusões da Cimeira parecem, no entanto, dar razão ao presidente do Brasil. Luis Inácio Lula da Silva considerou que «muitos parecem ter perdido a capacidade de se indignarem» com a persistência da desnutrição crónica, a mais letal «arma de destruição massiva», ignorando, acrescentou Lula da Silva, «que produzimos o suficiente para alimentar com sobras toda a humanidade».
As palavras do representante dos grandes grupos económicos do sector agro-alimentar, Howard Minigh, proferidas num fórum dedicado ao papel dos privados no combate à fome que precedeu a Cimeira, ajudam a perceber as razões que estão na base da alegada «ignorância». Instado pelo secretário-geral da FAO a comprometer-se com o aumento célere da produção, Minigh preferiu falar em «perspectivas de negócio a longo prazo».
Negócio que já hoje faz com que 31 países da África e Ásia se mantenham em situação de grave insegurança alimentar, isto apesar da boa colheita de cereais no ano de 2009. Como notou a FAO seis dias antes da sua reunião magna, o preço dos alimentos nos países pobres importadores «permanece obstinadamente alto» e bens como o trigo, o milho ou o arroz voltaram a registar subidas de preço.


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