• Pedro Campos

Reforma venezuelana em curso
Neste mês haverá uns quantos referendos revogatórios na Venezuela. Quase ninguém fala deles. O que está na berlinda é a reforma constitucional, que terá lugar no começo de Dezembro. A reforma, desenhada para aprofundar o processo bolivariano, foi proposta por Hugo Chávez e como é óbvio a oposição opôs-se à mesma muito antes a conhecer e denunciou-a mesma antes de ela estar pronta! Uma vez mais, consciente de que se vai afundar noutra derrota eleitoral, divide-se entre os que não querem participar na votação e só pretendem travar o processo de mudanças através de um golpe de Estado ou de uma invasão gringa, e os que querem votar, porque já entenderam que as vias anteriores conduziram a derrotas sucessivas e à perda do seu poder de mobilização. Esta tendência é crucificada dia sim e dia também pelos média.
Para já, uma empresa de sondagens ligada à oposição mas relativamente credível, adiantou que 24% da oposição vai abster-se e 22,5% votará contra.
Enquanto as autoridades desenvolvem esforços por todo o país para divulgar entre a população as razões e o conteúdo da reforma, os média, transformados em partidos políticos opositores [1] e a hierarquia católica abriu uma guerra feroz contra a reforma e defendem encarniçadamente a Constituição de 1991... à qual se opuseram com igual virulência quando foi aprovada pelo povo!
Os disparos verbais contra a reforma partem de ambos os extremos, direita e esquerda, e frequentemente entram em colisão ridícula. Emeterio Gómez, da corrente neoliberal mais retrógrada, afirma que «é comunismo puro». Da outra ponta, Douglas Bravo, ex-guerrilheiro, jura que «com a reforma, consolida-se o domínio total do capital estrangeiro sobre o nosso país». Não dá para entender.

Sondagens para todos os gostos...

Como sucede em (quase) todos os países, sondagens há para todos os gostos. Uma afirma que 54% da população consultada rejeita as propostas, nomeadamente a de reduzir a jornadas laboral a seis horas. No mesmo dia, outro jornal atira com esta: essa proposta só é rechaçada por 5% dos consultados. Alguém mente.
Objectivamente, tudo indica que a reforma constitucional será aprovada e a tarefa dos bolivarianos será a de conseguir reduzir ao mínimo a abstenção, o que não é fácil quando grande parte do eleitorado chavista tem a convicção de que a vitória está segura. Pode suceder o mesmo que nas últimas legislativas. A maioria da oposição, apesar de todas as cedências do Conselho Nacional Eleitoral, decidiu não participar [2], o que levou a uma desmobilização considerável das forças chavistas.
Voltemos à campanha do referendo – que está a começar – e aos primeiros resultados apresentados por IVAD.
Se a consulta fosse amanhã, 42% votaria pelos «sim» e 22,5% pelo «não». A criação do poder popular tem 65,4% a favor e 24,4% em contra. Incluir o conceito de socialismo na constituição? 47,2% pelo «sim», 40,5% pelo «não». Direito à segurança social para os trabalhadores não-dependentes? Ganha o «sim» com 90,8%. Proibição do latifúndio? O «sim» ganha com 51,6% contra 31,7%. Como será a Venezuela do futuro? 53,2% garantem que será um país socialista democrático e 13,3% que será socialista mas não democrático. Existem, porém, algumas áreas que exigem um trabalho de esclarecimento da população. Neste caso estão, por exemplo, a transformação da reserva militar em milícia popular, a extensão do período presidencial a sete anos e a questão da eliminação da autonomia do Banco Central, onde os resultados, pelo menos por agora e segundo esta empresa, não são favoráveis ao processo de mudanças.
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[1] Desde Córdova, Argentina, onde foi receber um doutoramente no final de Setembro, Ignacio Ramonet, director de Le Monde Diplomatique, recordava que os média deixaram de cumprir a sua função social. «A Venezuela é um caso exemplar. São os poderes mediáticos que travam a batalha política, esta é a fachada mediática da ideologia da globalização liberal». Vea, 30 de Setembro de 2007.
[2] Depois da última cedência aceitou participar e no dia seguinte, véspera das eleições deu o dito por não dito e absteve-se, pretendendo deslegitimar o poder legislativo.


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