• A. Mello de Carvalho

As contradições da mudança
O clube, que constitui a célula essencial do sistema desportivo, surgiu em meados do século XIX, e consolidou-se durante cerca de um século. O próprio acontecimento desportivo mais importante à escala do Planeta – os Jogos Olímpicos, comemoraram um século há poucos anos. Constituem a mais espectacular forma de competição desportiva de que a população mundial tem conhecimento directo, desde que a televisão descobriu e explorou as potencialidades mobilizadoras que o desporto possui.
A organização desportiva constitui por isso, um autêntico «estereótipo» ou seja, uma ideia que se fixou, imutável no tempo e no espaço. Alterar este «estereótipo» constitui uma das tarefas mais difíceis porque ele assumiu um carácter cultural imutável, essencialmente assente no funcionamento democrático por representação, de carácter hierárquico e piramidal.
Organizado por níveis, a partir do clube, o sistema federado assenta em princípios de representatividade idênticos. Entre nós, esta organização sempre sofreu sérios desvios de democraticidade devido à compartimentação dos diferentes níveis e à constante emergência de fenómenos de caciquismo e falta de comunicação. Nisso, é bom reconhecê-lo, a democraticidade da vida desportiva não é diferente da da vida social no seu todo, em que o traço de participação política mais marcante se traduz na simples deposição do voto, verificando-se uma marcada ausência de participação e informação, condições essenciais de um processo democrático pleno.
No entanto, apesar de toda esta estrutura se apresentar socialmente como imutável, ela não só é relativamente recente como tem sofrido alterações ao longo do tempo. O caso mais evidente dessas transformações é precisamente o dos Jogos Olímpicos que sofreram evidentes alterações. O «espírito olímpico» está posto em causa com mais evidência, de há cerca de 15 anos para cá, e a Carta Olímpica sofreu alterações sensíveis de acordo com a evolução dos tempos.

Potencialidades de transformação

Toda esta estrutura está a ser abalada nos seus alicerces. A mais evidente prova da sua inadaptação ao presente traduz-se em duas realidades: muitos dos próprios atletas já não se reconhecem nela, mas, principalmente, uma enorme quantidade de praticantes recusa integrar as instituições existentes e prefere uma prática individualizada ou em grupo informal, ou então, quem pode procura as empresas da «forma física», pagando bem.
Numa perspectiva de extensão da prática desportiva, especialmente nos meios populares, esta constatação é importante porque deve levar a uma análise e a uma reflexão sobre o que é o clube hoje, e aquilo em que se deve transformar para responder às necessidades futuras. De facto, o clube continua a constituir a única instituição capaz de reunir a participação real com a responsabilidade directa, a liberdade de escolha com capacidade de intervenção, a militância desinteressada com valor, e o exercício da solidariedade como acção.
O Mundo transforma-se à nossa volta mas a percepção da mudança é difusa e envolta numa série de contradições que, por vezes, ocultam o essencial para valorizar o acessório. Durante decénios, os valores do desporto mantiveram-se falsamente imutáveis: na sua primeira fase, eram a higiene, a saúde e o aspecto físico, misturados com intenções militaristas. Em seguida, prevaleceram lentamente as preocupações educativas, formativas e culturais. Na nossa época começam a valorizar-se as noções de prazer, de bem estar, de aventura, de «descarga» de adrenalina.
Parece ter havido regressão. Mas se tomarmos em consideração as características essenciais da época em que vivemos, o desporto não deixa de viver as mesmas contradições e a mesma crise. Mas, em si mesma, a crise encerra potencialidades importantes de transformação.
Uma das dificuldades está no facto de que muitos dirigentes dos clubes desportivos terem sido formados e actuado sempre de acordo com aquele estereótipo que continuam a considerar imutável. Por outro lado, assumem com demasiada frequência, e em simultâneo, a atitude de lamento pela falta de meios (que é real e dura), ou então lançam-se num processo reivindicativo sem uma base de sustentação suficientemente sólida. Tudo isto em vez de promoverem uma profunda análise das novas necessidades sociais e culturais a que o clube deverá fornecer resposta e sem unirem esforços para enfrentarem o processo de «crise».


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