• Margarida Botelho

Uma doce vida
A Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) lançou uma petição para que os hipermercados abram ao domingo à tarde e aos feriados, com uma criativa argumentação em 12 pontos, toda em nome do consumidor: porque «20% da população portuguesa tem horários superiores a 41 horas semanais», porque «o aumento do número de mulheres que trabalham fora de casa requer a abertura do comércio aos domingos e feriados», porque «é um factor de equilíbrio no trânsito urbano», porque «gera emprego e evita desemprego.»
Registamos o altruísmo e o cuidado das mais de 40 empresas que compõem a APED, entre as quais cadeias como o Continente, o Carrefour ou o Pingo Doce, todas reconhecidas pelo desvelo e respeito com que tratam os seus trabalhadores. Foi decerto imbuídos desse espírito de preocupação com as horas que as mulheres passam fora de casa, que estes patrões puseram as trabalhadoras das caixas dos seus supermercados a recolher assinaturas para trabalharem também ao domingo à tarde e aos feriados.
Talvez inspirados pela associação de defesa do consumidor DECO, que pensa que «o comércio em geral deve estar aberto quando os consumidores estão disponíveis para comprar», os centros comerciais Dolce Vita de Coimbra, Porto e Vila Real marcaram para dia 29 um novo passo: funcionar 24 horas.
Como a probabilidade de alguém precisar de comprar bijuteria ou comida para o canário de madrugada não é muito grande, o grupo espanhol proprietário dos nove centros comerciais Dolce Vita espalhados pelo país dá um empurrãozinho à iniciativa: cinema mais barato a partir da meia-noite, lojas abertas com descontos até à 1h, concertos gratuitos e animação prometida toda a noite.
Já no ano passado os Dolce Vita tinham tentado impor esta maratona aos trabalhadores. Concretizaram-na em Coimbra, mas a resistência dos trabalhadores e a intervenção do movimento sindical unitário impediu-a no Porto.
Entra pelos olhos dentro o que está em causa nesta «iniciativa diferente» dos Dolce Vita: criar hábitos, rotinas, necessidades de consumo. Mas sobretudo abrir precedentes no que diz respeito aos direitos dos trabalhadores e aos horários de trabalho. Nesta como noutras circunstâncias, noutras ofensivas, noutras lutas, os trabalhadores e o movimento sindical saberão unir-se, resistir, vencer.


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