• A. Mello de Carvalho

A crise das «lógicas» da prática
Um dos aspectos da crise vivida no desporto actual tem origem na invasão hegemónica do modelo da prática desportiva «federada» e de alto nível que se «apoderou» de todas as outras formas da prática. Devido ao facto de os órgãos de informação massiva (mass media) só promoverem, quase exclusivamente, a divulgação do espectáculo desportivo, conjugado com a imensa falta de «cultura desportiva» (aspecto específico da crise cultural), a visão dominante, inclusive de muitos educadores e técnicos desportivos, refere-se unicamente a este modelo único.
Na prática, esta situação contribui fortemente para impedir a visão correcta do processo de democratização das actividades desportivas. Por outro lado, referindo-se, permanentemente, ao seu carácter sensasionalista e aos aspectos menos positivos daquilo que nele se passa (clubite, intrigalhada, corrupção, mercantilização exacerbada, utilização sensacionalista da violência etc.) os média impõem uma visão hegemónica carregada de aspectos negativos (selectividade precoce, «endeusamento» do campeão, criação de falsos mitos, exploração da crendice na «pureza» de intenções dos diferentes intrevenientes e dos aspectos mais obscuros do grande «circo», etc.).
Esta questão assume uma gravidade particular porque impede, por um lado, a adequação da «lógica da prática» à situação concreta em que se encontra cada um dos praticantes (o desporto da criança não pode obedecer aos mesmos objectivos daquele que é praticado pelo jovem adulto e o mesmo acontece com a prática realizada pelo idoso, assim como uma actividade que tem como objectivo fundamental a integração social da juventude marginalizada não pode obedecer aos mesmos princípios daquela que orienta o espectáculo desportivo) e, por outro lado, como que generaliza o seu carácter negativo a todas as outras «lógicas da prática».
Estas, que esquematicamente, reduzimos a cinco, merecem um aprofundamento mínimo:
- A lógica do espectáculo «super-mediático», assenta, em grande parte, na utilização emocional e na manipulação afectiva que certas actividades fazem viver à grande massa dos espectadores, tendo vindo a sofrer uma profunda comercialização;
- A lógica da comercialização das práticas físico-desportivas, facto que, em si mesmo, nada tem de negativo, se não fosse posta em prática por empresas preocupadas com a obtenção do lucro financeiro, muitas vezes sem possuírem a orientação técnico-pedagógica indispensável e cientificamente minimamente qualificada e de acesso reservado a quem pode pagar;
- A lógica do «desporto para todos», que procura afirmar-se como um processo de penetração da prática desportiva no interior da vida comunitária, tomando em consideração o modo de vida próprio das populações e os diferentes momentos em que ela se pode exprimir. Infelizmente, também em relação a esta perspectiva, se levantam objecções, pois não se pode ignorar que, apesar do conceito ter penetrado facilmente as «mentalidades» (o que é positivo), foi também recuperado pelo processo «oferta/procura», mercantilizando-se fortemente;
- A lógica do «desporto educativo», essencialmente reivindicado pela prática do «desporto na escola» e, por um certo tipo de clubes. Também neste caso se têm de tomar em consideração a existência de dois fenómenos negativos de efeitos convergentes: a reprodução do modelo de alta competição sem tomar a devida conta a situação das crianças e dos jovens, e as dificuldades persistentes que continuam a impedir a generalização das suas práticas. Estes dois fenómenos, a que se deve juntar a dificuldade em dar plena satisfação às necessidades da realização plena da educação física, impedem que a Escola desenvolva, com correcção, uma missão essencial no processo de democratização da prática desportiva e ao clube que desempenhe as funções sociais que são as suas;
- a lógica de prática desportiva socialmente «integradora», dirigida aos marginalizados. Este processo, que assume pontos de contacto com a «lógica» anterior mas que dela se diferencia em termos de adequação ao ambiente, procura colocar a prática desportiva ao serviço da luta contra a segregação e a desigualdade sociais de acesso às actividades culturais.
Também procura fornecer uma contribuição significativa para a alteração de comportamentos «desviantes» (frequentes em certos bairros e em algumas áreas das tribunas dos estádios) e de rejeição das estruturas socializadoras clássicas (em especial da escola).
Como se pode ver cada uma das lógicas vive uma «crise» própria. No fundo, nada mais é, do que o reflexo da crise geral que atravessa o desporto, e esta, por sua vez, resultado directo da crise social global.


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