• Jorge Messias

Os ilusionistas
Em 1993, a Universidade Católica e o patronato anunciaram os seis pontos básicos que iriam balizar o roteiro do poder neocapitalista: movimentação dos mercados, desregulamentação dos preços e dos despedimentos, emagrecimento do sector público do Estado, fim da gratituidade dos serviços públicos, redução drástica da progressividade dos impostos e anulação gradual do financiamento do Estado ao próprio banco emissor (Banco de Portugal). Ainda Sócrates e os seus ministros não eram cabeças de cartaz. E terá sido então a última vez que a direita revelou os seus verdadeiros objectivos. Mas as trombetas da globalização já se faziam ouvir. Dali em diante, iria dedicar-se a hipnotizar o público, a tirar coelhos da cartola e ao culto do saque sob o manto diáfano da fantasia. Os ministros declaram-se socialistas ou parentes próximos. Os ricos são filantropos. Os banqueiros combatem a pobreza. Os votos conquistam-se com mentiras. A justiça beneficia os poderosos. Nunca foram tão grandes as fortunas pessoais.
Nunca foi tanta a pobreza e a miséria. Nunca foi tão alto o desemprego. Nunca a corrupção se generalizou como actualmente. Contudo, continuam a acenar-nos com o sucesso, com a solidariedade, com a justiça social e com os direitos, liberdades e garantias que figuram numa Constituição permanentemente desprezada pelo regime no poder. É a era do ilusionismo.
O neoliberalismo constitui pano de fundo do assalto aos assalariados e a parte da classe média. Saca-lhes as poupanças que depois transfere para os ricos, através da banca. Vai à Igreja e nela tece a cortina ética com que tapa e destapa infindáveis escândalos nacionais. Insinua-se na política para corromper, destruir valores e anestesiar a vontade popular.
Interessa observar-se que não há no capitalismo lugar para a inocência. Predomina, pelo contrário, uma estrutura subterrânea minuciosamente planeada e votada a degradar e a destruir quaisquer vestígios de justiça social. Uma poderosa rede mundial cujo objectivo é a acumulação dos lucros e a fusão dos grandes interesses financeiros.

Um negócio tentador

Falar em tudo isto é necessariamente referir a Banca, principal posto de comando dos ilusionistas. Os banqueiros são mestres na matéria. Operam a ocultas, invocam grandes valores éticos e acumulam lucros fabulosos. Nada comentam quando é divulgado que, só no exercício de 2006, as dez maiores empresas cotadas em Bolsa tiveram lucros de 5,5 mil milhões de euros e um crescimento financeiro médio anual de 122%. Assim, nesse período, os grandes grupos económicos cresceram cerca de oito vezes o valor do PIB portugas. E omitem a informação de que, apenas em três dias de especulação bolsista, o BCP teve mais-valias de 760 milhões apenas com a gestão dos boatos gerados pela telenovela da OPA lançada sobre o BPI.
Em contrapartida, estatísticas recentes, certificadas pela União Europeia, informavam que só a Polónia e a Lituânia apresentam índices de pobreza superiores a Portugal. Temos na Europa os maiores indicadores de pobreza, de risco de pobreza, de desemprego, de abandono escolar, de insuficiente tempo de escolaridade, de exclusão de grupos de risco, de rendimentos do trabalho, etc. O parasitismo das elites e o eterno noivado entre o capital, as classes dominantes - financeiras, políticas, religiosas - e as cúpulas das oligarquias reforçou-se ainda mais, segundo dados recentes, com novos tipos de engenharia financeira. As tecnologias de ponta já instaladas em Portugal, permitem aos grandes grupos económicos disporem de holdings especializadas no investimento selectivo.
O exemplo é dado pela existência de estruturas de técnicas financeiras cuja intervenção só agora se começa a revelar publicamente. O grande capital aumenta incessantemente o seu poder através de bolsas de investidores (hedge funds ou fundos protegidos). Trata-se de poderosos grupos que recolhem fundos de investidores e os canalizam através de outras superestruturas semi-clandestinas - os business angels ou anjos do negócio – para clientes-alvos previamente seleccionados e patrocinam projectos que obedeçam a um critério de private equity (igualdade privada) promotor de maior desigualdade. Então tudo passa a correr muito bem. A empresa é salva, o projecto avança, os trabalhadores em risco transformam-se em pequenos accionistas. A imagem pública de capitalismo é branqueada e os trabalhadores à beira do desemprego passam de súbito a patrões de si próprios. Por uns tempos deixam de ser pobres, calam os seus protestos e incluem-se no sistema dos ricos.
É matéria para reflexão o arsenal de que se serve o grande capital para fusionar empresas, diminuir despesas, aumentar os lucros e envenenar o sentido da verdadeira luta de classes.


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