• André Levy

Hegemonia ameaçada
Imaginem que, à falta de dinheiro, passo uma nota promissória a um vendedor comprometendo-me a pagar-lhe uma dada quantia. O vendedor por sua vez faz uso da mesma nota para pagar a um fornecedor. Este, eventualmente, faz o mesmo, e assim por adiante. A nota promissória circula, funcionando na prática como dinheiro, e eu sem ter pago ainda nada a ninguém, contente da vida, começo a passar notas promissórias ao desbarato. Até que um dia começam a bater-me à porta exigindo que converta as notas em dinheiro real. Continuando eu sem cheta, e tendo-me comprometido a pagar um valor muito acima das minhas possibilidades, só me resta declarar bancarrota. Ou então intimidar quem está na posse das notas promissórias a não me chatear.
Este cenário é análogo à actual circulação do dólar. O actual défice de conta corrente dos EUA atingiu, em 2006, quase 900 mil milhões de dólares (6.5% do PIB), um máximo histórico. Para tal contribui o enorme déficit comercial, que em 2005 alcançou 800 mil milhões de dólares. Para compensar este déficit e os investimentos no estrangeiro, os EUA precisa de atrair um influxo diário de oito mil milhões de dólares em empréstimos e investimento. Os pagamentos das dívidas são, porém, muito reduzidos, e recentemente até são negativos, pois os investidores estadunidenses têm maior retorno nas bolsas estrangeiras que os estrangeiros na bolsa dos EUA. Segundo os dados mais recentes (de finais de 2005), a dívida externa líquida é de 2.7 biliões de dólares (o bilião da escala longa, portanto 2.7 milhões de milhões). A dívida externa bruta porém é de 14 mil milhões de dólares, pois esta medida tem em conta as reservas de dólares espalhadas pelo mundo, que podem ser convertidas em qualquer momento noutras moedas. A principal razão porque tal não acontece em larga escala deve-se ao facto de o dólar ser a divisa exigida pelo FMI e a principal moeda para compra e venda de petróleo – dois terços dos dólares em circulação mudam de mãos fora dos EUA.

Efeito cascata

É neste ponto que o déficit de conta corrente remete para a minha história das notas promissórias. Os EUA têm podido sustentar esta dívida monstruosa pois emitem dólares em excesso, cujo valor não cai vertiginosamente porque continua circulando sem que seja trocado por outra moeda. No momento em que tal suceder, haverá uma depreciação do dólar, uma subida dramática do preço das importações e da inflação, uma depressão nos mercados de valores e mobiliários, e um efeito cascata sobre a economia mundial.
Compreende-se assim que a manutenção do dólar como principal moeda de troca no comércio dos hidrocarbonetos não é apenas uma questão de imposição imperial, trata-se da sobrevivência da economia estadunidense. Por esta razão, houve quem argumentasse que um dos factores influentes no derrube do regime de Saddam Hussein foi a sua decisão de abandonar o dólar e vender o petróleo iraquiano por euros.
E chegamos por fim à situação do Irão. Na sequência da sua inclusão no «eixo do mal», em 2002, o Irão começou a estudar a possibilidade de vender petróleo noutra divisa que não o dólar. Em Junho de 2004, anunciou que iria criar um bourse de petróleo, ou um mercado internacional de troca de petróleo, alternativo aos mercados de Londres e Nova Iorque. A sua abertura estava planeada para Março de 2006, mas tem sido sucessivamente adiada e ainda não foi inaugurada, estando o início de operações previsto para breve. Significativamente, foi já anunciado que os câmbios serão realizados em euros. Em Março deste ano, o banco central do Irão anunciou que havia reduzido as suas reservas em dólares a apenas 20% das suas divisas estrangeiras, em resposta à hostilidade estadunidense. O Irão exporta 2.5 milhões de barris de petróleo por dia, o equivalente, aos preços actuais, ao influxo de 150 milhões de dólares/dia que passaria a realizar-se em euros. Em Março foi também noticiado que a Zhuhai Zhenrong Corp, principal comprador de crude iraniano, começou a pagar em euros.
Este volume refere-se apenas à venda de petróleo iraniano. A possibilidade de comprar petróleo em euros será provavelmente adoptada pela União Europeia, e também pelas grandes economias da China e Rússia que vêm procurando diversificar as suas reservas de divisas, vendendo reservas de um dólar crescentemente desvalorizado. Pela mesma razão, vários países árabes da OPEC poderão também adoptar o euro. Juntamente com a Rússia, os seus comércios são mais intensos com a UE do que com os EUA. E a «diplomacia» imperial dos EUA também servirá de incentivo. Face a tal ameaça ao centro nevrálgico da economia estadunidense, é previsível que os EUA tenham de tomar medidas. É a sua hegemonia que está em causa.


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