A casa do Luso fica para sempre na história da resistência antifascista
Sofia Ferreira, no Luso, evoca luta clandestina
Coragem contra a repressão
A histórica dirigente do PCP Sofia Ferreira participou, domingo, no Luso, numa iniciativa evocativa da prisão, naquele local, de Álvaro Cunhal, juntamente com ela própria e com Militão Ribeiro. Corria o ano de 1949.
A 25 de Março de 1949 foram presos numa casa do Luso dois dirigentes do PCP e uma funcionária clandestina. Ela, Sofia Ferreira, ficaria presa durante três anos. Os seus companheiros teriam outra sorte. Álvaro Cunhal ficou encarcerado durante mais de dez anos, acabando por fugir do forte de Peniche em Janeiro de 1960. Militão Ribeiro viria a falecer na cadeia em Janeiro de 1950.
Quase seis décadas depois, a casa ainda existe e está remodelada. À porta, uma placa evoca o acontecimento. No domingo, Sofia Ferreira regressou ao local onde foi capturada pela PIDE para uma evocação do sucedido, integrada nas comemorações do 86.º aniversário do Partido.
Perante dezenas de comunistas e outros que, não o sendo, se quiseram juntar à evocação (entre os quais o presidente da Câmara Municipal da Mealhada), a histórica dirigente do PCP lembrou o acontecimento: ali viveu, sob o nome Elvira, com Álvaro Cunhal, que se fazia passar por Manuel Soares, que alegadamente recuperava de uma doença e afirmava estudar para concluir um grau académico. Uma noite, quando lá pernoitava também Militão Ribeiro, acabado de escapar de outra casa, seis agentes da PIDE e vários elementos da GNR «armados com metralhadoras» prenderam os três funcionários clandestinos.
Sobre algumas imprecisões que normalmente se associa a este episódio, Sofia Ferreira esclareceu que Álvaro Cunhal não tentou fugir e muito menos tentou saltar o muro do quintal. Tal façanha era, aliás, impossível, já que os três residentes da casa foram apanhados na cama e que de imediato Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro foram algemados um ao outro, ainda de pijama.
Mas as «imprecisões» não se ficam por aqui. O boato de que nessa casa existiam equipamentos de telecomunicações «escondidos na parede» e livros e outros documentos debaixo do soalho não passa disso mesmo. Esclarecendo, Sofia Ferreira lembrou que «aqui, o nosso trabalho era político, não era de transmissões com Moscovo».
Recordando a vida «escondida» que levavam, a histórica dirigente comunista guarda a memória da clandestinidade como tempos duros e difíceis. A prisão do Luso foi «um golpe grande, pesado, para o Partido» que aí perdeu dois dirigentes. Mas o importante, realçou, é que este soube «resistir, juntar energias, reforçar-se e vencer».

Faz falta o museu da Resistência

João Frazão, da Comissão Política, lembrou que a iniciativa se realizava num momento em que se pretende rescrever a história do fascismo, que oprimiu Portugal durante 48 anos. Segundo alguns escribas, prosseguiu, em Portugal houve um regime autoritário, sim, mas não ditatorial; duro, mas não torcionário. «O acontecimento que hoje evocamos é disto o mais cabal desmentido.»
O dirigente do PCP lembrou que a clandestinidade não foi uma escolha dos comunistas, mas sim uma situação que lhes foi imposta pela ditadura fascista. Este regime, recordou, «negava todas as possibilidades de qualquer actividade política democrática» e reprimia ferozmente a mais pequena manifestação de protesto. E, prosseguiu, foi nessa condição de clandestinidade que os comunistas lutavam «pelo pão, pela paz, contra a miséria, por melhores condições de vida e de trabalho». Por essa luta, realçou, «pagaram os comunistas um elevado preço».
Ao invés de erigir um monumento a Salazar, «embrulhado no científico nome de Centro de Estudos do Estado Novo», que mais não seria do que um espaço de romagem de saudosistas, afirmou João Frazão, «o que faz falta é o museu da resistência, feito a partir das muitas experiências das vítimas do fascismo».


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