Jerónimo de Sousa no debate mensal
O País não melhora quando o povo fica pior
O Primeiro-Ministro foi ao Parlamento anunciar na passada semana a revisão do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC). A meta do défice em 2007 passa de 3,7 % para 3,3 %, definiu o Governo, perante o resultado das contas públicas que situou o défice nos 3,9 % em vez dos 4,6 % previstos no Orçamento do Estado para 2006.
Cantando vitória, este foi, aliás, o trunfo com que José Sócrates se apresentou no debate mensal onde o tema, bem a jeito, era a «consolidação das contas públicas». Embalado no resultado, que considerou «extraordinário», falou do «bom desempenho da economia», mostrando-se muito satisfeito pelo crescimento económico que superou em duas décimas o inicialmente previsto pelo Governo para 2006 (foi de 1,3 % contra o 1,1% calculado).

Fraco troféu

Só que «um país nunca fica melhor quando o seu povo fica pior, e é isso que está a acontecer em Portugal». Foi assim, com estas palavras, que o Secretário-Geral do PCP refreou o entusiasmo do chefe do Governo, fazendo-lhe notar que a obtenção de um valor abaixo dos 4,6 %
no défice das contas públicas é um «fraco troféu» se comparado com o que isso representa de custos elevados para a economia e para a vida das pessoas.
«É preciso saber à custa de quê e de quem se obteve tal resultado», afirmou Jerónimo de Sousa, lembrando que ele foi alcançado à custa da redução drástica do investimento público, do corte na despesa social, de uma brutal e injusta carga fiscal, da perda de direitos e do poder de compra dos trabalhadores da administração pública.
E as consequências desta política de «absolutização do défice», como lhe chamou, essas, estão bem à vista, segundo o líder comunista, que exemplificou com os níveis de desemprego mais altos dos últimos vinte anos, com o encerramento de serviços públicos ou com o desaproveitamento de fundos comunitários por redução do investimento.

Ortodoxia neoliberal

Outra questão central introduzida no debate pelo dirigente do PCP prende-se com a sustentação futura desta política de obediência cega à lógica da diminuição da despesa. «Pretende continuar com o desemprego, com despedimentos na função pública, precarização e mais contenção salarial ?», perguntou, insistindo em saber, dirigindo-se a Sócrates, se é intenção deste continuar a «política de restrição do investimento», de «cortes da despesa pública» e de levar por diante um «novo pacote de privatizações» abrangendo empresas como a ANA, a TAP ou a REN.
«Quantos são os funcionários que a sustentabilidade das finanças públicas vai mandar para o quadro de supranumerários em 2007», inquiriu Jerónimo, sem obter resposta do Primeiro-Ministro, a quem acusou de seguir a cartilha neoliberal.

As razões do protesto

O secretário-geral comunista desafiou ainda José Sócrates a reflectir sobre o significado da grandiosa manifestação de 2 de Março que espelhou bem o descontentamento dos portugueses em relação à política do Executivo. E aconselhou o primeiro-ministro a não «subestimar» esses protestos porque os portugueses podem decidir «silenciar os aplausos e mudar de rumo».
Na resposta, embora reconhecendo que a redução do défice «foi à custa do esforço dos portugueses», Sócrates considerou não ver aí razão para descontentamento. E, numa tirada já muito repetida, quando lhe faltam os argumentos, considerou que o PCP tem há 30 anos a «pretensão» de ser «a voz do povo».
Jerónimo de Sousa, na réplica, afirmou-se como «deputado da República» que não declina o seu dever de «defender o que considera justo para o povo».
«São muitos os que não são do meu partido e se me dirigem com preocupações, homens, mulheres e jovens que votaram no PS», sublinhou.


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