• Francisco Silva

«Para além do Bem e do Mal»?
Ouve-se dizer com frequência que o Mal ou o Bem não participam das características intrínsecas pelas quais é avaliável o conhecimento científico e mesmo as potencialidades tecnológicas dele decorrentes. A questão residirá em saber em que mãos está o Poder que os pode accionar, a questão está, portanto, nos seus efeitos, quando se passa da teoria à prática.
Ora essa! - contestarão muitos. Então, por exemplo - e que exemplo então - não foram os conhecimentos desenvolvidos na área da física nuclear que levaram directamente ao Mal, às bombas atómicas e nucleares, não foi com elas que os «americanos» destruíram Hiroshima e Nagasaki? Não foi com base na corrida aos armamentos nucleares que vivemos no terror durante a Guerra-Fria? Ou não estará a ser ainda este o tema destacado quando são apontados os perigos da Coreia do Norte e do Irão em disporem de tecnologia nuclear? Não é sempre Mal, independentemente de serem os «bons» - os nossos - ou os «maus» - os outros - que detém o conhecimento e as realizações tecnológicas?
Sim, mas há também as utilizações pacíficas, também há Bem nesta história, há a energia nuclear não poluente e amiga do ambiente (excepto nos quase impossíveis acidentes). É verdade - direi eu -, mas muitos defensores das utilizações pacíficas não querem ver tais conhecimentos e know how1 nas mãos dos outros. Atitudes assumidas deste modo porque os que assim pensam consideram haver na fissão nuclear maldade intrínseca, pelo que, pelo sim pelo não, é melhor que só sejam os deles a poderem dispor dos meios e saberes necessários.
Outro caso de monta - lembrarão muitos outros - é o dos sucessos científicos & tecnológicos do desenvolvimento industrial e da sua inerente poluição, das chuvas ácidas, dos gases de efeito de estufa, acima de tudo o CO2, que está na ordem do dia (o qual, diria eu, ingenuamente talvez, afinal é um ingrediente fundamental para a «criação» das árvores e para a agricultura, mas adiante), gases de efeito de estufa esses que estão a desequilibrar o ambiente do planeta. São efeitos da actividade industrial do Homem, estes do «aquecimento global», das «alterações climáticas», etc. Não vale a pena insistir nos males que um pouco por toda a parte poderão advir do uso desenfreado que a Humanidade faz dos combustíveis fósseis para cozinhar, para fabricar roupa e calçado, para se deslocar, para não morrer de frio, sei lá que mais: e então ou não fazemos nada disto ou vamos às energias alternativas incluindo a nuclear, etc. Não é aqui o lugar de discutir isto. Só registar que, mesmo quando trabalhamos para o Bem, para a satisfação de necessidades básicas parece estarmos a actuar Mal - e ainda mais Mal está a vir aí sobretudo devido às quantidades novas e enormes envolvidas, agora que países que englobarão 1/3 ou mais da população mundial (China, Índia) se puseram a caminho na rota do desenvolvimento.
Finalmente, refiro-me a uma outra área da C&T para qual o Mal também aparece a muitos como sendo uma característica intrínseca do respectivo conhecimento científico e decorrentes potencialidades tecnológicas. Estou a referir-me à biologia molecular e á biotecnologia que emprega as ferramentas da engenharia genética. As esperanças terapêuticas abertas - o Bem - com o descodificar do genoma humano foram desde logo enormes. Contudo, os resultados práticos têm levado mais tempo que os optimismos fariam supor, têm sido um pouco decepcionantes - talvez as orientações tomadas fossem demasiado reducionistas, demasiado absolutistas quanto às potencialidades do nível genético por si só. Noutro tipo de aplicações, na agricultura transgénica, os problemas levantados no mínimo não são nada pacíficos. No entanto, são seguramente as questões éticas, as questões das estabilidades das espécies, nomeadamente da espécie humana, as questões da «defesa da Vida», da utilização de embriões, que maiores problemas têm levantado. Portanto, também o Mal parece participar intrinsecamente desta empresa biológica molecular da C&T…
Mas o que têm de comum estes três exemplos que parecem indicar que afinal a C&T não estará para além de Bem e Mal, que afinal não é neutra e que não são apenas as aplicações concretas que conferem a maldade ou a bondade? É que as fronteiras de qualquer destas áreas correspondem a limites «absolutos»: (i) só quando a emissão radioactiva baixou para baixo de certos níveis foi possível a vida; (ii) o nível de estabilidade climática a não dever ser ultrapassada; (iii) a estabilidade das espécies e a sacralidade da «Vida».

1 - Saber fazer.


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