Editorial

«Naquilo a que os média chamam rentrée, o PCP vai ter não um, mas dois comícios»

<em>MODERNIDADE</em>, SEMPRE ELA

Há meia dúzia de anos, os politólogos ao serviço da política de direita decidiram que a realização de comícios partidários na rentrée era coisa antiquada, desenquadrada da modernidade do tempo europeu que vivemos. E anunciaram que era necessário pôr cobro a tal velharia.
Para os partidos que têm como preocupação maior a modernidade europeia – dos quais sobressaem os dois partidos da política de direita – acabar assim, de um dia para o outro, com o único momento do ano em que juntavam as suas bases e os respectivos líderes se lhes mostravam, não era coisa fácil: as bases estavam habituadas, aquela era única participação militante que lhes era solicitada (tirando o voto, é claro), aquele era o maior, porventura o único, momento em que a democracia partidária dava sinal de si. Mas a verdade, é que os comícios eram incómodos, obrigavam a uma proximidade incómoda com as ditas bases e sempre agravada para o que calhava estar no governo e aí ia fazendo a política de sempre, contrária aos interesses da imensa maioria das respectivas bases.
Finalmente o problema foi superado. Para isso recorreu-se a essa velha gaiteira, cheia de rugas e com os cabelos todos brancos, que dá pelo nome de modernidade.
«Comícios fora de moda no regresso de férias», grita um jornal a toda a largura de uma página. E avisando que «a tradição já não é o que era», vai ouvir o que queria ouvir ouvindo as opiniões dos politólogos, um dos quais esclarece que o fim dos comícios tem a ver com o facto de a ligação entre os políticos e o eleitorado, a que mais conta, obviamente, ter na comunicação social um meio mais eficaz do que os comícios. E esclarece que o modelo de rentrée centrado na «crítica ao governo» tende a ser substituído pela «apresentação de propostas políticas alternativas» - ou seja, acrescenta, como quem não quer a coisa, em «iniciativas como as universidades de Verão» do PSD. Pois.

Tão modernaças são estas universidades de Verão que, sobre a que o PSD vai realizar este ano – e que um dirigente deste partido garante ir «ao encontro das tendências que se verificam na Europa», portanto à prova de modernidade – já sabemos tudo o que lá vai acontecer há três meses. Referimo-lo aqui em Maio passado, na sequência de profusa informação dos jornais sobre tudo o que iria ser o evento: data, local, figurino e, até – veja-se! – o conteúdo do discurso que o líder do PSD iria pronunciar no discurso de encerramento da «rentrée sem comício»: «a revisão dos estatutos do partido». Aqui se disse, e agora se repete, ser esse um tema de fácil abordagem, especialmente se comparado com a ciclópica tarefa que alguns correligionários do dito líder lhe exigem: fingir que é oposição ao governo PS/José Sócrates. Tarefa mais do que ciclópica, inexequível, seja qual for o líder que está nessas circunstâncias. Aliás, como temos tido oportunidade de observar ao longo de trinta anos de representações ora do PSD, ora do PS: um no governo a fingir que está a fazer uma política a que o outro se opõe; o outro fora do governo a fingir que se opõe à política que o do governo faz. E desta vez, as coisas estão piores do que nunca para o que desempenha o papel de oposição já que o governo rosa, faz todas as malfeitorias que um governo do PSD faria e mais todas as que um governo laranja não teria condições para fazer.

A rentrée do PS, essa apresenta uma inovação assinalável. Segundo o «responsável pela organização do partido», «este ano o PS retomará a actividade política de forma normal». Deixando no ar a insinuação da anormalidade da retoma da actividade política nos anos anteriores, o referido dirigente informou que, um dia destes, será necessário convocar «uma reunião da Comissão Permanente para preparar o Congresso do partido», marcado para o próximo trimestre.
Eis-nos perante outro facto assinalável: o tão pouco tempo necessário – dois ou três meses! - para preparar um congresso partidário.
Para nós, comunistas, só em situação extraordinária tal hipótese se nos colocaria. Trazer à participação no debate congressual milhares de militantes – o maior número possível de milhares de militantes - não é tarefa que consigamos fazer do pé para a mão, que é como quem diz de um mês para o outro. Menos, ainda, se essa participação militante se quer interventiva, opinativa, interessada, empenhada.
Mas nós, comunistas, não somos «modernos». Ainda há dias um senhor ministro nos acusava, irritado, de persistirmos na defesa dessa velharia que é a independência e a soberania nacional...
E porque não vamos em modas continuamos a ter, naquilo a que os média chamam rentrée – mas que, para nós, é tão-somente mais uma jornada de luta, a continuar as anteriores e a impulsionar as futuras - não um, mas dois comícios, respectivamente nos dias 1 e 3 de Setembro. E ambos com intervenções do secretário-geral do Partido, camarada Jerónimo de Sousa.
Na Festa do Avante!, pois claro. Na Festa que milhares de militantes e simpatizantes do Partido constroem na Atalaia e em todas as organizações partidárias. Na Festa que é a maior manifestação política, cultural, artística e de convívio que se realiza em Portugal. Na Festa de Abril e dos seus ideais libertadores e progressistas. Na Festa só possível de construir através de trabalho voluntário e da militância partidária – valores que os politólogos de serviço hão-de considerar como velharias, coisas ainda mais «fora de moda» do que os comícios partidários.


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