• André Levy

Guerra (in)justa
Ainda o Sul da ilha de Manhattan estava vedado à população quando teve lugar uma das primeiras manifestações nos EUA contra a já enunciada «guerra contra o terrorismo». Havia sido marcada para o dia 7 de Outubro de 2001, e momentos antes do seu início eram largadas as primeiras bombas sobre o Afeganistão. A coluna de manifestantes foi-se confrontando nas ruas com acusações de anti-patriotismo por parte de nova-iorquinos ainda cegos pelo desejo de vingança (contra quem quer que fosse). Quem se opunha à guerra não compreendia as duras realidades impostas pelo terrorismo, diziam. Havia que dar uma resposta rápida, e o alvo mais evidente era o país hospedeiro do chefe da Al’Qaeda, país liderado por fundamentalistas islâmicos, um verdadeiro posto de recrutamento e treino de novos terroristas, e onde as mulheres eram alvo de constantes abusos. Invadir o Afeganistão era necessário. Fazendo uso da linguagem e argumentação ensaiada com relativo sucesso durante a intervenção da NATO no Kosovo, era uma «guerra justa».
Mais de um ano depois, seriam centenas de milhares de pessoas a desfilar em Nova Iorque (e por todos os EUA e pelo mundo) contra a invasão do Iraque. Tornava-se então evidente para um número crescente de pessoas nos EUA que a estratégia bélica de Bush tinha de ser travada, que estava a aumentar o risco de novos ataques terroristas, que a retórica de rapina se fundamentava em mentiras, que apoiar os militares passava pela exigência da sua retirada do teatro de guerra. A opinião contra a ocupação do Iraque veio progressivamente a crescer, e embora não tenha sido suficiente para evitar a reeleição de Bush, este confronta-se com índices de popularidade historicamente baixos.
Embora a estratégia no Iraque seja abertamente contestada, não só por manifestantes, mas por jornalistas, políticos, e militares, as razões da invasão do Afeganistão e respectiva ocupação têm escapado ao escrutínio e crítica mais atenta. Isto apesar de este processo se pautar por elementos semelhantes aos do Iraque ou Guantanamo.

Guantanamo não é caso único

Ponhamos de parte agora a história: que o Al’Qaeda e Osama bin-Laden são fruto directo dos mujahedin apoiados pelos EUA para combater a URSS e depois abandonados; que os Taliban eram aliados da família Bush e chegaram a oferecer a entrega de bin Laden aos EUA. Esqueçamo-nos também que a invasão do Afeganistão não tinha base legal, já que este país não tinha atacado os EUA, nem se havia passado da suspeita (ainda que provável) de a Al’Qaeda ser responsável pelos ataques de 11 de Setembro. Havia que atacar o fulcro da Al’Qaeda, diziam-nos, capturar bin Laden, e se nesse processo se libertasse o Afeganistão dos Taliban, restaurasse os direitos das mulheres, e estabelecesse a segurança e a democracia no país, então ainda melhor. Para alcançar estes objectivos, estima-se, teria sido necessário meio milhão de tropas: Bush enviou oito mil. Para lograr desalojar os Taliban, aliaram-se e armaram-se vários «senhores da guerra» afegãos, que desde então têm contribuído para o estado de insegurança do país, tendo restabelecido a plantação de ópio e garantido 90% da heroína que entra na Europa. O governo controla pouco mais que a área em torno da capital, Kabul. O resto do território pauta-se pela insegurança e domínio de forças locais.
Os Taliban também não foram de todo eliminados. Desde Dezembro de 2001 que organizam acções de resistência à ocupação pelos EUA, contra as eleições e o novo governo. Em Dezembro de 2005, controlavam já partes significativas das províncias do Sul do Afeganistão, como Helmand. Desde então tem havido uma escalada de violência, tanto de ataques dos Taliban como de ofensivas dos ocupantes, que à semelhança do Iraque atingem a população indiscriminadamente. As mulheres continuam a sofrer tantos nos territórios de novo controlados pelos Taliban, como nos controlados pelos regentes locais, como pelos forças ocupantes.
O Afeganistão é também sede da prisão de Bagram onde estão mais de 600 presos, muitos detidos há 2 ou 3 anos sem serem formalmente acusados, sujeitos a tortura, e sob condições piores do que na prisão de Guantanamo. Um ex-interrogador estima que 90% dos presos serão inocentes.
Apesar do evidente falhanço da estratégia de Bush também no Afeganistão, este cenário continua a beneficiar de uma estranha isenção, continua a ser uma «guerra justa».


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