• Henrique Custódio

As hierarquias no Médio Oriente
O ataque militar maciço de Israel ao Líbano já dura há mais de uma semana, o que tem circunstanciado uma vasta exibição do que se entende por «objectividade informativa» nos três canais generalistas de televisão a operar em Portugal.
Todos sem excepção – e seguindo, aliás, o exemplo da generalidade dos jornais – tratam de hierarquizar os acontecimentos de modo a salvaguardar, em primeiro lugar, as posições de Israel, sugerindo ou, mesmo, explicitando a sua posição de «vítima» e remetendo para segundo lugar tudo o que diga respeito aos palestinianos e aos árabes em geral, onde os elementos são deliberadamente misturados, numa amálgama que em si mesma menoriza tudo o que diga respeito a esse lado do conflito.
Os exemplos abundam e são diários, mas basta recordar um ou outro.
Logo no início todos os canais noticiaram, com a apresentação das mesmas imagens vindas directamente da cidade israelita de Haifa e enviadas para as redacções de todo o mundo pelas grandes agências norte-americanas, um morto e alguns feridos israelitas na sequência de um bombardeamento desta cidade do Norte de Israel por morteiros lançados pelo Hezzbollah. Viam-se ambulâncias, macas com letras hebraicas transportando pessoas, uma azáfama ordenada e eficiente de serviços médicos civis em acção enquanto por cima disto, em voz off, se explicava que «aquelas vítimas israelitas civis foram atingidas por morteiros lançados pelo Hezzbollah contra a cidade israelita mais tolerante», supondo-se que esta informação pretenderia demonstrar que o Hezzbollah era tão malvado, que não lhe bastava atacar civis, tinha também de atingir «civis tolerantes». A notícia prosseguia com afirmações de um ministro israelita garantindo que «a ofensiva prosseguirá até serem libertados, incondicionalmente, os dois soldados israelitas capturados», alguns pormenores sobre as diligências feitas na ONU para se ultrapassar o conflito, referindo finalmente que «o Sul do Líbano tinha sido bombardeado pela aviação israelita, provocando 22 mortos palestinianos», isto sempre com as imagens das vítimas israelitas em Haifa e já sem imagem nenhuma, a não ser a dos pivots dos telejornais, quando foi dada a informação, como remate e quase de passagem, dos 22 mortos palestinianos, certamente uma bagatela, para merecer tão displicente lugar na notícia...

Em nome da «auto-defesa»

Em televisão, como se sabe, a imagem é fundamental, não sendo por isso indiferente – e muito menos inocente – quer as imagens que se filmam, quer as que se mostram e, ainda, as que se escolhem nas sequências da montagem.
Também aqui os três canais afinam pelo mesmo diapasão, no que toca à actual crise no Médio Oriente.
Sem excepção, as imagens pormenorizadas e imediatas vêm sempre de Israel, mostrando com minúcia e nitidez qualquer estrago infligido, a perturbação nas ruas, a aflição das pessoas, as declarações dos cidadãos, os feridos a serem transportados, as declarações dos políticos israelitas, tudo fornecido na hora, com relevo e precisão e a partir do território israelita. Trata-se de um ponto de vista total: a partir do local e tomando indisfarçavelmente partido pelos locais...
Quando se fala das consequências no outro lado as imagens são genéricas, com registos à distância, muitas vezes intercalando filmagens de explosões fornecidas pelos próprios aviões israelitas durante os bombardeamentos, à semelhança do que faz o exército norte-americano nas «reportagens» do Iraque.
De fora, ou seja sem uma única imagem a testemunhar os acontecimentos, ficam os já 250 mortos civis palestinianos e libaneses em sete dias, chacinados pelos bombardeamentos israelitas sobre o Líbano e a sua capital, Beirute, assassinados indiscriminadamente e contando entre eles numerosas mulheres e crianças.
Paralelamente a isto, os mesmos três canais generalistas portugueses, todos à uma, continuam muito tranquilamente, sem um distanciamento ou uma nota crítica que seja, a difundir as declarações dos responsáveis políticos israelitas chamando «terroristas» aos adversários que assassinam à bomba e reclamando o direito de bombardear civis inocentes onde quer que seja e em nome do que chamam o seu «direito à auto-defesa»...


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