• Jorge Messias

História trágico-marítima da barca de S. Pedro
Recentemente, o papa deixou os observadores desorientados quando declarou em público: «Com frequência, Senhor»– disse Ratzinger dialogando com a Tutela Sagrada –«a tua Igreja parece-nos uma barca prestes a afundar-se, uma barca que mete água por todos os lados, fustigada pelos ventos de diversas ideologias». Mais não disse o papa, deixando os analistas desorientados, sem saberem explicar a que barca e a que ideologias Bento XVI se referia.
Pensamos que Ratzinger, como é seu hábito, dramatizou a situação real. Sabe-se e é evidente que a igreja católica perdeu toda a credibilidade como representante mística de uma religião. Os cânones católicos esfumaram-se entre as brumas da memória. Nem os padres os levam a sério. O que todos reconhecem é que no mundo moderno o que conta é o poder, a afirmação do poder e uma expansão sustentada. Nesse cenário a igreja do Vaticano não recebe lições de ninguém. Com uma elevada noção de pragmatismo a Santa Sé reconhece que os tempos do Sacro Império jamais regressarão ao Ocidente. São nostalgias. Agora, nada se faz que não envolva alianças e partilhas entre elites. Neste aspecto, a barca de S. Pedro navega cada vez melhor.

Práticas da navegação

A seguir a Bill Gates se ter convertido ao negócio caritativo, foi a vez de Warren Buffet, detentor da segunda maior fortuna americana, doar mais de 31 mil milhões de dólares à «Fundação Melinda e Bill Gates», a mesma que o grande senhor da Microsoft e seu competidor no campeonato dos mais ricos fundou. Define-se pois, com clareza, o perfil do «novo» capitalista global: crente, filantropo, desejoso de repartir com os pobres o muito que possui, arrependido do pecado. Vivemos na era das surpresas e das cambalhotas. O mundo virtual é assim mesmo.
Em Portugal, também é nítida a aceleração deste processo de transformação das almas. Onze grandes senhores da indústria, tocados pelos novos ideais dos mais ricos no combate à pobreza e à exclusão foram a Belém aderir ao apelo do Presidente da República no sentido do apoio desinteressado dos capitalistas, a favor dos pobres e dos desvalidos, e contra as desigualdades sociais. Estes miraculados pelo espírito da metanóia – do arrependimento e abandono do pecado – representavam no acto a SAPEC, a FINIBANCO e a VICAIMA, a LABESFAT farmacêutica, o BPP - Banco Privado Português, a SOMAGUE, o BANIF (Banco Internacional do Funchal), de Horácio Roque, a Jerónimo Martins, a SEMAPA e a PORTUCEL, a RENOVA e a Hotelaria e Turismo. Note-se que não é de simples empresas que falamos. Cada um dos banqueiros que citámos dominam redes de holdings dependentes, num total de centenas ou de milhares de subsidiárias. Se compararmos a soma dos capitais assim disponíveis, tendo em conta as dimensões das economias americana e portuguesa, os milhares de milhões de Gates e de Buffet pesam menos do que a massa financeira disponibilizada neste compromisso pelo grupo dos onze. Um acordo talhado à maneira de Fátima e com a chancela do Opus Dei. Amizades aparte, os filantrópicos investidores sociocaritativos colocaram desde logo uma condição prévia ditada pela sua nova fé: receberem do Estado a tutela da educação.
Outra é a perspectiva da Santa Casa da Misericórdia, uma IPSS com fins não-lucrativos. Não é o ensino que lhe interessa como prioridade, mas o sector da Saúde e da Segurança Social. A Santa Casa, que se afirma desinteressada do lucro, partilha com a banca privada os mais altos índices de crescimento financeiro. Para termos uma vaga ideia do ritmo desta acumulação de riqueza, basta referir que, somente nos primeiros cinco meses de 2006, e apenas na área dos jogos e lotarias, a Misericórdia de Lisboa confessou lucros líquidos superiores a 280 milhões de euros. Só o Euromilhões rendeu mais de 503 milhões à santa instituição. Os negócios vão de vento-em-popa. As misericórdias firmaram discretos protocolos com os Salgados, os Mellos e os Monjardinos, acerca dos futuros Hospitais S.A.. O governo, atento à extinção do Serviço Nacional de Saúde, descobriu poder dispor ainda de 400 milhões de euros para pagar a privatização futura de novos 20 hospitais civis. E a Misericórdia de Lisboa anunciou a entrada em vigor até ao próximo ano de novo sistema de divisão dos lucros de jogos e lotarias, com alteração de critérios de repartição e a diminuição das verbas até aqui atribuídas a idosos necessitados, acamados e portadores de deficiência. É que o Euromilhões cresceu mas o Totobola quebrou. E em negócios não se brinca. Alguém há-de pagar.
O roubo é força do mercado. Não tem razão o Papa quando diz que a barca de S. Pedro se arrisca a naufragar. Apenas as velas se rasgaram. Agora navega a motor.


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