• Aurélio Santos

As pistas falsas
Abri a televisão e caí num debate em que os participantes se propunham discutir a situação nacional. Um sujeito anafado, de papada tremente, afirmava com um autoritarismo que se apresentava como indiscutível, a propósito do caso Azambuja, que temos de nos convencer que, «no mundo actual já não é a política que toma as decisões, mas sim a economia» e por isso «o nosso governo» nada poderia fazer.
O sujeito da papada falava com ares de uma autoridade indiscutível, rigorosa, científica: era «o Sr. Professo».
O discurso encaixava como uma luva na campanha de desmobilização que a ofensiva capitalista em curso quer impor a todo o preço. Traduzindo:
A «política», isto é, a intervenção dos cidadãos, das pessoas, «nada podem fazer».
- As decisões, são tomadas segundo critérios, rigorosos, científicos, incontestáveis, da «economia».
Claro que quem manda nessa «economia» não são uns simples cidadãos quaisquer, para esses fica a política devidamente esvaziada de poderes. A «economia» obedece a outros poderes, os do detentores do grande capital financeiro, e os governos não podem ser senão simples mandatários desses senhores.
E a isto chamava ele: «modernidade».
Uma outra participante do «debate», com ar de legítima representante da moderna «geração tecnológica», formatada nas disquetes da economia neoliberal em curso, «contestava-o» dizendo que... «de facto, só a nível internacional» as imposições da «economia» podiam ser modificadas - dando assim, talvez involuntariamente, mais uma acha para queimar a intervenção dos cidadãos na «política» dos seus governos, transferindo-os para uma utópica e vaga acção internacional, desligada da política dos seus países e onde estruturas supranacionais são descaradamente manipuladas pela alta finança multinacional, como se tem visto...
E eu lembrei-me dos milhares de horas de pistas falsas difundidas diariamente no mundo por sentenciosas «autoridades indiscutíveis», opinion makers como este.
É nestas pistas que o tandem Sócrates-Cavaco gosta de pedalar, cobrindo com slogans de «choques tecnológicos» os choques no bolso com que vão atingindo os cidadãos e apresentando como prioridade «acabar com os privilégios» dos trabalhadores para assegurar «legítimos direitos» do capital. E ainda esta semana o director do Banco Europeu veio dar mais um óbolo para esse peditório, proclamando que é necessário Portugal «baixar os custos do trabalho» para «aumentar a competitividade da economia»...
Enfrentamos de facto toda uma campanha impregnada de posições, conceitos e princípios difundidos de acordo com os interesses da classe dominante, visando fazer de nós um país de cidadãos amestrados, numa democracia burguesa dominada pelo grande capital.
E é por o nosso Partido ser portador de alternativa, de mudança, de vida nova, de esperança - que ganhámos e mantemos tão forte apoio, carinho e respeito entre as massas populares.


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