• Henrique Custódio

Dima
Dima é uma criança russa, um rapazinho por volta dos 10 anos, loiro e sorridente, ao que consta com jeito para o futebol, vivendo num orfanato algures nuns confins da imensa Rússia. Apareceu na televisão, em todos os canais pois tratava-se de uma «reportagem internacional», daquelas que as grandes centrais de informação - localizadas sobretudo nos EUA e algumas na Europa dos ricos – costumam servir ao mundo como «informação independente» e lá o vimos, nós e ele com toda a independência, a festejar com os amigos a «sorte grande» que lhe tinha caído no orfanato aos trambolhões.
Fora escolhido para visitar o clube de futebol do Chelsea, em Londres!
Dima, propriamente dito, ainda mereceu mais algumas referências para compor a notícia: vivia no orfanato mas tinha cinco irmãos (os autores da reportagem não acharam que valesse a pena informar onde se encontravam esses irmãos, se também no orfanato ou noutro sítio qualquer) e, segundo ele próprio, «a mãe este ano ainda não pudera vir buscá-lo, por falta de dinheiro», subentendendo-se que Dima não apenas esperara também nos anos anteriores que a mãe o viesse buscar, como previa continuar à espera nos tempos mais próximos.
Mas, obviamente, não era para amiudar tão desconfortáveis pormenores que a reportagem ali se deslocara, aos confins da Rússia.
O fulcro da questão era outro, como depressa se esclareceu.
Dima fora «seleccionado» para se deslocar a Londres e conviver, de uma assentada, com a equipa do Chelsea e o seu treinador José Mourinho, não por uma qualquer característica pessoal que a isso o recomendasse, mas apenas porque um benfeitor tivera a generosa ideia de oferecer tão bombástico prémio a um «menino pobre» que «jogasse futebol».
Que menino pobre, quando há tantos por esse mundo fora?
Fácil: um «menino pobre» da mesma terra do senhor rico que oferece a viagem a Londres.
Que senhor rico?
Eis-nos, finalmente, chegados à questão central.
Falamos (ou fala a reportagem) de Roman Abramovich.
É claro que toda a gente conhece Roman Abramovich, o russo que, após ser transformado instantaneamente em multimilionário ao receber de mão-beijada, dos próprios corruptos que se instalaram no Kremlin, uma larga fatia da riqueza petrolífera da URSS, decidiu embasbacar o Ocidente com a compra de um clube de futebol completo, o britânico Chelsea, a quem levou a vitórias fulgurantes após contratar a peso de ouro o treinador mais bem cotado (por acaso o português José Mourinho) e uma equipa de eleição.
Mas a Abramovich - como frequentemente acontece tanto aos velhos como aos novos ricos – já não basta exibir a fortuna colossal que controla, seja comprando clubes de futebol inteiros ou iates aos pares. Também quer ostentar bons sentimentos e volteá-los na cara do mundo, para que todos fiquem bem informados duma outra grandeza que o abençoa, a famosa «grandeza de alma» que, como se vê, também pode ser comerciada.
É aqui que entra o jovem Dima, parece que feito de encomenda para Abramovich exibir a sua generosidade: é criança, pobre, ainda por cima «patrício», pelo que todo o mundo se há-de comover a vê-lo «realizar um sonho»: conviver por umas horas com o Chelsea.
É evidente que o pequeno Dima ficaria muito mais feliz, e o mundo muito mais comovido, se Abramovich proporcionasse trabalho e dinheiro à sua mãe, de modo que esta pudesse ir buscá-lo.
Mas não pode ser. As colossais fortunas dos Abramovich que os embusteiros da Perestroika geraram, afinal de contas, foram construídas precisamente à custa dos direitos de muitos milhões de Dimas, mais os respectivos irmãos, pais e mães.


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