Revisão Constitucional de 1989

<font color=660033>A contra-revolução legislativa</font>

«Com a presente revisão da Constituição o governo e as forças da direita procuram cobertura para as suas actuações inconstitucionais passadas e em curso e visam justificar o prosseguimento e intensificação das suas ofensivas contra as grandes conquistas do povo português», afirmava o Comité Central do PCP, em 30 de Maio de 1989, pouco antes da aprovação da revisão. Na verdade, desde 1976 que a prática política de sucessivos governos entrava «abertamente pelo caminho da actuação inconstitucional».
A obtenção, em Julho de 1987, da maioria absoluta pelo PSD de Cavaco Silva deu um novo fôlego à ofensiva reaccionária. Se o programa de governo apresentado não deixava dúvidas quanto aos seus objectivos, analisados pelo XII Congresso do Partido como sendo fundamentalmente a «destruição das conquistas de Abril, a subversão do regime democrático constitucional e a restauração do capitalismo monopolista de Estado», muito menos deixava a sua actuação política e legislativa. São do PSD de Cavaco Silva as leis tendentes a legalizar os despedimentos sem justa causa e a instituir como regra a precariedade, a limitar o direito à greve e à liberdade sindical, a instituir a propina para a frequência do Ensino Superior Público, entre muitas outras.

Ao serviço do capital

Se a Constituição da República, por si só, não representava um obstáculo intransponível à ofensiva contra as conquistas de Abril, assumia-se porém, como então afirmou o CC do PCP, como «um importante factor de contenção e um poderoso esteio da resistência e da luta». Profundamente empenhado na restauração do capitalismo monopolista em Portugal, o PSD, com Cavaco Silva à frente, não poupou esforços à remoção desse incómodo «obstáculo» e encetou o processo de revisão constitucional. O acordo com o PS, fundamental para a obtenção da necessária maioria de dois terços, fez o resto.
A eliminação da irreversibilidade das nacionalizações, a par da concessão ao governo de vastos poderes para reprivatizar «sem regras nem princípios» (CC do PCP, 30/5/1989), foi um dos principais vectores da revisão cavaquista. Juntamente com o desaparecimento de qualquer referência à Reforma Agrária do texto constitucional, apontava-se directamente à democracia económica e social conquistada com o 25 de Abril.
Num artigo publicado no Avante! em 11 de Maio desse ano, o então deputado comunista Octávio Teixeira considerava que a revisão punha seriamente em causa o princípio fundamental da subordinação do poder económico ao poder político. Escrevia Octávio Teixeira que a Constituição de 1976, na sua vertente económica, consagrava a «eliminação do poder dos grupos monopolistas e dos latifundiários na sociedade portuguesa, e a colocação da economia nacional ao serviço dos interesses do País, visando a crescente satisfação das necessidades de todos os portugueses». Com a revisão cavaquista, ficava mais aberto o caminho para o domínio da economia nacional pelos grandes grupos económicos e pelo capital estrangeiro, como efectivamente veio a suceder (ver textos nestas páginas).

Crescente autoritarismo

Em coerência com a política autoritária do governo PSD/Cavaco Silva, a revisão constitucional acolheu alterações que favoreceram a bipolarização e a governamentalização do sistema político. A redução do número de deputados e a distorção da representação proporcional beneficiou os partidos mais votados, os mesmos que acordaram os termos da revisão. Foi ainda admitida a diminuição dos poderes de fiscalização da Assembleia da República em relação ao governo.
As medidas tendentes a facilitar a instrumentalização pelo grande capital e pelas forças de direita dos órgãos de comunicação social e a mudança do estatuto constitucional do direito à saúde – afectando-se o princípio da gratuitidade do Serviço Nacional de Saúde – foram outras das alterações desfiguradoras dos direitos garantidos pela Constituição de Abril.


Mais artigos de: Temas

<font color=660033>Os malefícios de Cavaco</font>

Como candidato à Presidência da República, Cavaco Silva afirma ser muito sensível ao bem estar da população, ao desemprego e ao crescimento económico. Contudo, a sua actuação como primeiro-ministro durante dez anos, entre 1985 e 1995, desmente as declarações actuais. Os exemplos multiplicam-se e os factos são irrefutáveis.

<font color=660033>Os mitos do «cavaquismo»</font>

1 - O «milagre económico»Cavaco Silva apresenta-se às eleições presidenciais como o economista competente capaz de fazer Portugal sair da crise. Ao contrário de outras matérias – em que evita falar dos dez anos em que foi primeiro-ministro de Portugal –, no campo do crescimento económico, Cavaco Silva afirma-se orgulhoso...

<font color=660033>Ataque à economia nacional</font>

Em 1988, das cerca de 70 empresas públicas existentes, apenas uma dúzia apresentava prejuízos e muitas tinham lucros substanciais. No entanto, o governo de Cavaco Silva privatizou uma grande parte delas, pondo em causa a soberania nacional e a estabilidade da economia portuguesa.Entre 1989 e 1992 foram privatizadas 21...

<font color=660033>Um rude golpe na democracia de Abril</font>

A revisão constitucional de 1989 desferiu um duro golpe na Constituição da República Portuguesa, aprovada em 25 de Abril de 1976. Esta, na sua parte económica, consagrava os «ideais do 25 de Abril de 1974: a eliminação do poder dos grupos monopolistas e dos latifundiários na sociedade portuguesa, e a colocação da...