• Jorge Cordeiro

Procurador socialista?
A pretexto da notícia sobre a verificada impossibilidade da reedição da coligação, decidiu o BE descarregar sobre o PCP responsabilidades e acusações. Neste residiria a responsabilidade maior pelo inêxito da coligação tudo porque, segundo Louçã, o PCP, na base de uma «construção sectária», ter-se-ia oposto à presença do bloco na eventual coligação e porque na sua negociação teria prevalecido «a mercearia de lugares». E, por último, mas não menos importante porque, segundo Louçã, o PCP ousara «exigir uma relação paritária» com o PS. Lendo e ouvindo dirigentes do bloco e do partido socialista sobre a matéria fica-se sem saber quem fala pela voz de quem. Das duas, uma: ou Louçã fala, do que obviamente não pode conhecer, pelo que o PS lhe quer pôr na boca, ou diz o que diz por manifesta má-fé e incontido preconceito anticomunista. Três observações se impõe deixar registadas.
A primeira, para elementar esclarecimento em matéria de responsabilidades, que foi o PCP que insistiu no exame das possibilidades de uma reedição de coligação num quadro em que, a levar à letra as repetidas e sobranceiras declarações do PS sobre a questão, arrumada à partida esta teria ficado.
A segunda, para, desmentindo o que PS e BE puseram a correr sobre uma alegada recusa do PCP do alargamento da coligação àquele, sublinhar que só a má consciência do bloco quanto à coligação em Lisboa pode justificar aquela acusação. Para que a memória não seja traída aqui se recorda que: não foi o PCP que alguma vez se pronunciou em desfavor da participação do BE na coligação mas sim, e pelo contrário o BE que dela se afastou, hostilizou e combateu; quer PSR e UDP, hoje agregados no bloco, dela foram parte até o primeiro dela ter desertado em nome de umas «esquerdas unidas» e o segundo lhe ter feito companhia em 2001 numa candidatura do bloco apostada em derrotar a coligação Amar Lisboa; foi Miguel Portas, cabeça de lista do bloco á Câmara de Lisboa, e não o PCP, que nas últimas eleições declarou que «a coligação de esquerda em Lisboa esgotou as suas virtualidades» e favoreceu a vitória de Santana Lopes por escassas centenas de votos.
A terceira, para sublinhar que em matéria de «mercearia», e ao contrário do PCP, que nunca resumiu a questão a lugares mas sim nas garantias de construção e concretização de um projecto para a cidade, o percurso do BE em matéria de coerência para candidaturas autárquicas — caracterizada, como em 2001 se viu, por uma escolha de candidatos por critério de lista de oferta com origem em excedentes ou desavindos com os respectivos partidos ou por interpostas listas de chamados independentes onde se albergam os mais contraditórios interesses e projectos — é, por si, prova bastante para não levar a acusação a sério.


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