• Henrique Custódio

O «senhor 10%»
Emídio Rangel, numa crónica emitida na rádio, decidiu esta semana tomar partido pelas ambições hegemónicas do PS em relação à Câmara Municipal de Lisboa e, de caminho, vergastar o PCP, a quem responsabiliza de «ter rompido» uma hipotética aliança com o PS para as próximas eleições autárquicas na capital e a quem chama, nem mais nem menos, que «arrogante».
Isto porque, segundo a peremptória cabeça de Emídio Rangel, «o PC apenas chegou aos 10% em Lisboa nas últimas eleições» e, nas próximas (ou seja – infere-se – nas autárquicas do próximo Setembro/Outubro) «também não ultrapassará os 10%».
Desconhecemos – e, francamente, não nos interessa – a que eventual vagão do actual comboio do poder PS buscará, ou não, Rangel atrelar o seu carro, notoriamente manco desde que o seu dono foi sucessivamente despejado das direcções da SIC e da RTP.
Sabemos – embora tal não tenha também importância – que o homem que se gabava de «eleger Presidentes da República como quem vende sabonetes» não é, propriamente, uma voz qualificada para julgar as «arrogâncias» seja de quem for.
Mas tudo isso não mereceria uma linha, se não fosse a nada fortuita circunstância de Rangel estar a deturpar uns factos, a ignorar outros e a tirar daí conclusões deliberadamente falsas, no que, aliás, não está sozinho: Jorge Coelho, o responsável máximo pela estratégia eleitoral autárquica do PS, também por estes dias deturpou flagrantemente a realidade para concluir mentiras descaradas sobre o PCP.
Primeiro facto a ser deliberadamente deturpado por Rangel (e dizemos «deliberadamente», porque um homem culto e informado, como necessariamente ele é, não pode ignorá-lo), é que eleições legislativas e eleições autárquicas são coisas muito diferentes, com resultados igualmente muito diferentes, como, de resto, tem acontecido com o PCP em Lisboa, onde autarquicamente foi sempre muito mais forte que nas eleições legislativas. Garantir, assim, que «o PCP em Lisboa vale 10%» é uma descarada falácia.
Segundo facto grosseiramente «esquecido» por Rangel: em 1989 (imediatamente antes de a coligação PCP/PS conquistar a Câmara de Lisboa), o PCP dispunha na capital, no plano autárquico, de uma presença, influência e posições bem mais significativas que o PS – 27% dos votos e cinco vereadores, 12 presidências de freguesia e cerca de 300 eleitos do PCP (isto em plena «gestão Abecasis»), em contraste com 17% dos votos e três vereadores, nenhuma freguesia e 170 eleitos do PS. Garantir, ainda assim, que «o PCP em Lisboa vale 10%» é uma grosseira mentira.
Finalmente, chamar «arrogante» ao PCP por este recusar (embora Rangel o não «explicasse») a exigência – essa, sim, descabidamente arrogante – feita pelo PS de ficar «para si» com a hegemonia e o comando numa eventual coligação com o PCP em Lisboa, é rudimentar má-fé.
Uma má-fé tão descabelada como a exibida por Jorge Coelho quando, há dias, «acusou» o PCP de estar a «aliar-se ao PSD» nas autarquias sem apresentar um único facto a provar tal invencionice, ao mesmo tempo que o PS – esse sim, e exactamente na Câmara de Lisboa – se tem entregado, ultimamente, a viabilizar os desmandos da gestão PSD/Santana, apoiando, por exemplo, o escandaloso negócio do Parque Mayer e dos terrenos da Feira Popular, o congelamento da revisão do PDM ou a viabilização de grandes «operações» urbanísticas.
Como se vê, mentir é fácil e até dá votos instantâneos.
O PCP prefere trabalhar, o que não dá votos instantâneos mas, em compensação, conquista votos a sério...


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