• Manuela Bernardino
    Membro da Comissão Política do PCP

«O ascenso do fascismo constituiu a resposta das classes dominantes à crise do capitalismo»
Comemorar a Vitória, defender Abril, lutar pela paz
Comemoramos o 60º aniversário da Vitória sobre o nazi-fascismo, cientes das nossas responsabilidades de patriotas e internacionalistas, que nos apontam a necessidade de divulgar e valorizar o profundo significado desse acontecimento maior da história do século XX e, simultaneamente, a exigência de empenhada intervenção na batalha das ideias contra as omissões e falsificações em que as classes dominantes assentam a sua abordagem da 2ª Guerra Mundial.
Há quase um ano que vimos assistindo, quer por ocasião das comemorações dos 60 anos do Dia D ou, mais recentemente, para assinalar a libertação de campos de concentração, à utilização e instrumentalização de tais feitos, sem dúvida que decisivos para a derrota final do nazifascismo, enaltecendo apenas o desembarque das tropas anglo-norte-americanas na Normandia e a coligação anti-hitlerania de estados da Europa ocidental, procurando projectá-la para a actualidade com o claro objectivo de justificar a política belicista do imperialismo e a sua estratégia de domínio mundial.
E porque são vários os paralelismos que se podem estabelecer entre a situação que precedeu a 2ª Guerra Mundial e os dias de hoje, - profunda crise económica do capitalismo e contradições internas, militarismo e guerra, rivalidades e conciliação, subversão do direito internacional e violação das soberanias nacionais, ingerências permanentes em todos os continentes, formas violentas de terrorismo e práticas brutais de tortura, - este n.º do Avante! inclui um dossier para relembrar o quadro em que se desencadeou a guerra, os principais acontecimentos do seu desenrolar e ajudar assim à nossa intervenção para o esclarecimento da sua natureza imperialista e de factos fundamentais que conduziram à derrota do nazifascismo. E iremos para a rua com a nossa Exposição alusiva à Vitória, com o nosso órgão central, realizaremos debates para contrariar a revisão da História que está em curso, como um elemento indispensável à política de exploração e de guerra do imperialismo.

Repor a verdade

Passados 60 anos, a evocação da Vitória, no actual contexto internacional de agressividade imperialista, coloca como prioridade a divulgação das causas da 2ª Guerra Mundial, aspectos que a comunicação social dominante irá certamente iludir. Isto não quer dizer que não lembremos os horrores da guerra, os crimes cometidos nos campos de concentração e o enorme cortejo de sofrimentos que ela gerou e não prestemos homenagem aos seus mártires e heróis. Mas não deixaremos que se oculte que o ascenso do fascismo constituiu a resposta das classes dominantes à crise do capitalismo, foi o seu instrumento de terror contra os trabalhadores e os povos e tinha como objectivo liquidar a União Soviética e o socialismo. E, de igual forma, não deixaremos que se ocultem os compromissos, a conciliação e a traição da burguesia e dos seus governos que facilitaram o avanço do fascismo e o desencadeamento da guerra. E temos por obrigação lembrar o contributo decisivo da URSS, do seu povo e do Exército Vermelho quer na resistência à ocupação quer para a viragem no plano militar que possibilitou também a abertura da frente ocidental, confluindo assim todos os esforços das forças militares anti-nazis com a resistência popular e antifascista na caminhada para a Vitória. E é ainda nossa obrigação enaltecer a capacidade de organização, de coragem e heroísmo da Resistência e o papel dos comunistas que da França à Jugoslávia, da Bélgica, Holanda, Dinamarca à Grécia e Albânia, da Itália à Polónia e, no Extremo Oriente, da China à Austrália e tantos outros países se levantaram contra a besta nazi e o militarismo japonês.
Em Portugal, o regime fascista de Salazar evocou a “neutralidade” para não entrar no conflito, mas essa proclamação não o impediu de apoiar o esforço de guerra de Hitler. É conhecido o envio de géneros, de volfrâmio e o apoio político e ideológico. O povo português lutava contra a fome e enfrentava uma repressão brutal. Mas, também aqui, se desenvolveu a luta antifascista. Tal período correspondeu à reorganização do nosso Partido e a um espectacular desenvolvimento da luta de massas que permitiu ao PCP não só analisar correctamente a evolução da situação como, a partir da 2ª quinzena de Fevereiro de 1945, o Avante! na sua rubrica «O fascismo será derrotado», assinalar que «A vitória está perto!» e apelar desde aí para as manifestações da Vitória que, como se sabe, constituíram um ponto alto da luta antifascista no nosso país.
Mas para a derrota do fascismo em Portugal ainda foram necessários 29 penosos anos de lutas para alcançar Abril.
Face à ofensiva agressiva do imperialismo e aos perigos que ela encerra é necessário não só reforçar a luta pela paz, pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais como projectar também a confiança, os ensinamentos e as experiências de luta que conduziram à Vitória para que «nunca mais aconteça» e se possa construir um mundo mais justo, pacífico e solidário onde os trabalhadores e os povos possam decidir dos seus destinos.


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