Só neste ano, a resistência já provocou pelo menos 100 mortos
Sem julgamento
Alegados terroristas ameaçados de prisão perpétua
A administração Bush pretende implementar normas para manter em prisão perpétua, sem julgamento, os suspeitos de terrorismo já presos ou a deter no futuro.
Segundo um artigo divulgado pelo diário The Washington Post, e citado pela Prensa Latina, a CIA e o Pentágono solicitaram à Casa Branca que adopte regras permanentes para manter enclausurados os prisioneiros de Guantanamo e de outros centros, bem como os que vierem a ser detidos no futuro sob a acusação de terrorismo, apesar de não ter provas contra eles.
De acordo com as informações recolhidas pelo jornal, o Departamento de Defesa norte-americano prepara-se mesmo para pedir ao Congresso 25 milhões de dólares (18,5 milhões de euros) para a construção de um novo campo de concentração na base naval de Guantanamo, em Cuba - onde estão presos cerca de 500 presumíveis talibãs ou membros da Al’Qaeda -, já designado como «Campo 6», destinado a cárcere perpétuo dos suspeitos que nunca serão levados a tribunal por falta de provas.
Outra proposta na forja, da autoria do Departamento de Estado, é a de transferir os presos afegãos, sauditas e iemenitas para prisões especiais a construir pelos EUA nos respectivos países. Tais prisões passariam a estar sob a responsabilidade dos governos nacionais, a quem Washington exigiria, segundo escreve o Post, que «respeitassem os direitos humanos».
As primeiras reacções aos planos da administração Bush foram negativas, mesmo por parte de influentes figuras do partido Republicano. O senador Richard Lugar, presidente do Comité de Relações Externas do Senado, pôs mesmo em dúvida a constitucionalidade das propostas, enquanto diversas organizações humanitárias denunciaram a prática corrente da CIA de enviar presos para países que o próprio Departamento de Estado «condena» por desrespeitarem os direitos humanos, para poder continuar a interrogá-los e a mantê-los presos sem julgamento e sem o ónus de fazer tábua rasa desses mesmos direitos.

Democracia à americana

Entretanto, na Ásia, o secretário de Estado norte-americano Colin Powell afirmou ter ficado «triste» com o assassínio do governador de Bagdad, Ali Radi Al-Haidari, abatido a tiro esta terça-feira por um grupo de homens armados.
O atentado, afirmou Powell, demonstra que «há assassinos e terroristas que não querem a realização de eleições» e estão apostados em «regressar à tirania do regime de Saddam Hussein», o que os EUA não permitirão, pelo que se propõem continuar a implementar a «democracia» pela força das armas.
Para além deste ataque, dez pessoas, das quais oito polícias, foram mortas e 56 ficaram feridas num atentado com uma viatura armadilhada contra o quartel-general dos comandos do Ministério do Interior, que fica perto da Zona Verde, o perímetro de segurança do centro da capital. No mesmo dia, um fuzileiro foi morto na província de Al-Anbar, a oeste de Bagdad, anunciou o exército norte-americano.
Só neste ano, o recrudescimento da actividade da resistência iraquiana já provocou pelo menos 100 mortos.

Eleições podem ser adiadas

Os EUA parecem ser os únicos apostados na realização de eleições gerais no Iraque a 30 de Janeiro. Depois de o principal partido sunita - o partido islâmico - ter decidido boicotar a ida às urnas por falta de condições para um escrutínio «limpo», o ministro da Defesa iraquiano, Hazem Chaalane, admitiu na segunda-feira, no Cairo, que as eleições «poderiam ser adiadas se os sunitas se comprometerem a participar».
«Pedimos aos nossos irmãos árabes, nomeadamente ao Egipto e aos países do Golfo, para intervirem junto dos sunitas no Iraque para que participem nas eleições, e se uma tal participação necessita um adiamento das eleições, estas poderão ser adiadas», afirmou Chaalane, citado pela Lusa.
Mas não é apenas o facto de o partido islâmico se ter retirado da corrida eleitoral, afirmando que rejeitaria a constituição elaborada pela Assembleia resultante do escrutínio, que está a preocupar o governo interino instalado por Washington.
No domingo, a comissão eleitoral de Baiji, no Norte do Iraque, decidiu seguir o exemplo da sua congénere de Mossul e demitiu-se em bloco. O motivo, segundo Muhammad Shahran, responsável do organismo que estava encarregado de organizar as eleições, é a falta de segurança. Doze membros da Comissão terão recebido ameaças de organizações que consideram ilegítima a realização de eleições sob ocupação estrangeira.


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