• José António Gomes

Neruda: uma voz para o século XXI
Ler a obra de Pablo Neruda é talvez a melhor maneira de comemorar o centenário do seu nascimento. Mas também o é meditar sobre o seu perfil de homem e combatente revolucionário, fiel à poesia é certo, mas sem nunca ter abandonado a luta pelo socialismo e pela emancipação dos povos.
«A minha poesia e a minha vida decorreram (…) como uma torrente de águas do Chile, nascidas na profundidade secreta das montanhas austrais, dirigindo sem cessar o movimento das suas correntes para uma saída marinha. A minha poesia não repeliu nada do que pôde transportar no seu caudal (…). Todas as alternativas, desde o pranto até aos beijos, desde a solidão até ao povo, estão vivas na minha poesia (…). E se muitos prémios alcancei, (…) fugazes como mariposas de pólen fugitivo, alcancei um prémio maior (…) que muitos desdenham mas que (…) é para muitos inalcançável. Cheguei através de uma dura lição de estética e de procura, através dos labirintos da palavra escrita, a ser poeta do meu povo. (…) O meu prémio é esse momento grave da minha vida, quando na mina do carvão fundo do Lota, sob o pleno sol na salitreira abrasada, da cova escavada na falésia, subiu um homem como se tivesse subido do Inferno, com a cara transformada pelo trabalho terrível, com os olhos avermelhados pelo pó e, estendendo-me a mão endurecida, essa mão que leva o mapa da pampa nos seus calos e nas suas rugas, me disse com os olhos brilhantes: “já te conhecia há muito tempo, irmão.” Esses são os louros da minha poesia, esse buraco na pampa terrível de onde sai um trabalhador a quem o vento e a noite e as estrelas do Chile disseram muitas vezes: “tu não estás sozinho; há um poeta que pensa no teu sofrimento”.
Entrei para o Partido Comunista do Chile em 15 de Julho de 1945.»
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Escritas por Pablo Neruda no seu admirável livro de memórias, estas palavras oferecem uma visão sumária mas luminosa da aventura humana, poética e política do grande poeta nascido em 1904, em Parral, no centro do Chile (Neftalí Reyes Basoalto de seu nome) e que em 1920 adoptaria o pseudónimo que o tornou conhecido, ao deparar numa revista com o nome de outro grande escritor, de nacionalidade checa: Jan Neruda. A sua infância e adolescência decorreram mais a sul, em Temuco 2. Desse tempo guardaria as primeiras exaltações amorosas, a lembrança da poetisa Gabriela Mistral, bem como um cenário de chuva, lama, frio agreste e calor abrasador que marcaria a escrita nerudiana, juntamente com a memória da «longa história de sangue» 3 vivida pelos Araucanos, primeiro contra os conquistadores espanhóis e, trezentos anos depois, contra chilenos que expulsariam os índios das suas terras. Concluídos os estudos superiores na capital do Chile e com um livro tão notável como Crepusculario (1923) já editado, é após um período de boémia com jovens escritores e artistas em Santiago e na magnética cidade portuária de Valparaíso que Neruda inicia uma carreira diplomática que o leva de Rangum (Birmânia) a Barcelona, passando por Colombo (Ceilão), Batávia (Java), Singapura e Buenos Aires, onde conhece, em 1933, García Lorca.

Espanha no coração

Nomeado cônsul do Chile em Madrid, aí desenvolve intensa actividade literária: dirige uma revista, faz conferências e recitais, publica a edição definitiva de uma das suas obras mais importantes, Residencia en la Terra (1935), e estabelece estreitas relações de amizade com poetas como Alberti, Aleixandre, Altolaguirre, Cernuda, Lorca e Salinas. A tragédia da Guerra de Espanha e o assassinato de Lorca por uma milícia franquista determinarão uma mudança decisiva nas concepções ideológicas e literárias de Neruda. Apoiante da frente republicana, escreve España en el Corazon (1937) e intensifica a sua acção em favor do martirizado povo da Espanha. Nomeado cônsul para a emigração espanhola, fixa-se em Paris em 1939, realizando diligências em prol dos refugiados e organizando a partida de numerosos grupos de exilados para o Chile.
A partir de 1940, ocupa novos cargos diplomáticos (México) e faz viagens à Guatemala, a Cuba, aos Estados Unidos e a outros países, onde a aura de grande poeta lhe granjeia convites para recitais e conferências. A sua poesia começa a ser amplamente difundida na América Latina. Após a visita às ruínas incas de Macchu Picchu, nos Andes peruanos, o projecto de um Canto Geral do Chile, iniciado em 1938, converte-se em «canto geral da América»: «Pensei no antigo homem americano. Vi as suas antigas lutas enlaçadas às lutas actuais. Aí começo a germinar a minha ideia dum Canto geral americano. (…) Via agora a América inteira das alturas de Macchu Picchu. (…) Somos os cronistas de um nascimento retardado (…) pelo feudalismo, pelo atraso, pela fome. » 4 Representação épica dos combates e vitórias da América, mas também da sua geografia física – da sua zoologia e da sua geologia –, Canto Geral assume duas balizas temporais: 1400 (92 anos antes da «descoberta» da América) e 1949, ano em que o poeta dá por terminada a redacção da obra, a que posteriormente acrescentará novos textos. Este livro impõe-se ainda, por um lado, como crónica das lutas dos povos americanos pela libertação do colonialismo, do neo-colonialismo e da opressão capitalista, e, por outro, inclui trechos de dimensão autobiográfica onde Neruda dá conta da sua própria acção revolucionária e deixa registado o seu «testamento».

O exílio

A Segunda Guerra Mundial estava em curso e o poeta escrevera já os dois Cantos de Amor a Stalingrado. Eleito senador do Chile pelas províncias de Tarapacá e Antofagasta, relatará essa experiência no seu livro de memórias: «Esta gente sem escola e sem sapatos elegeu-me senador da República em 4 de Março de 1945. Recordarei sempre com orgulho o facto de terem votado por mim milhares de chilenos da região mais agreste do Chile, região das grandes minas de cobre e nitrato. É difícil e áspero caminhar pela pampa. Não chove durante meio século, naquelas regiões, e o deserto imprimiu a sua fisionomia aos mineiros. (…) Subir do deserto para a cordilheira, entrar em cada casa pobre, conhecer os desumanos trabalhos e sentir-se depositário das esperanças do homem isolado e submerso não é uma responsabilidade qualquer. No entanto, a minha poesia abriu o caminho da comunicação e pude andar e circular, sendo recebido como um irmão imperecível pelos meus compatriotas de vida dura.» Mais adiante, lê-se: «Durante muitos anos, as empresas extractivas de nitrato instituíram verdadeiros domínios, senhorios ou reinos na pampa. Os Ingleses, os Alemães, toda a sorte de invasores, fecharam os territórios da produção mineira e deram-lhes o nome de “instalações”. Impuseram nessas regiões uma moeda própria, impediram qualquer reunião, proscreveram os partidos e a imprensa popular. Não se podia entrar nos recintos sem autorização especial, que, sem dúvida, bem poucos conseguiam.» 5
É entre finais de 1947 e Janeiro de 1948 que Neruda protagoniza uma corajosa campanha contra o presidente chileno, González Videla, cuja eleição fora apoiada pelo Partido Comunista. Acusa-o de ter atraiçoado o seu programa eleitoral e o povo do Chile. O discurso que profere em 6 de Janeiro de 1948, logo publicado em folheto sob o título Yo acus! , conduz à sua expulsão do Senado e, dias depois, é ordenada a sua prisão. Com o beneplácito do governo norte-americano, tem início a repressão anticomunista. Para Neruda, é a entrada na clandestinidade, a fuga de casa para casa e o prosseguimento do Canto Geral, onde mais tarde se lerá esse inesquecível canto à fraternidade comunista que tem por título «Ao meu Partido» 6.
Forçado ao exílio, Neruda relaciona-se com figuras de proa da literatura e das artes, como Aragon, Éluard, Ilya Ehrenburg, Picasso e outros. Nomeado membro do Conselho Mundial da Paz, inicia uma série de viagens que o levarão à União Soviética (onde o atraem as realizações do socialismo e a paisagem), à China e a outros países. Após uma estada em Capri, com Matilde Urrutia (sua terceira mulher que lhe inspiraria Os Versos do Capitão e os Cem Sonetos de Amor 7), regressa à pátria em 1952, uma vez revogada a ordem de prisão que contra ele fora emitida.

O poeta do povo

Nos dezoito anos seguintes, a obra de Neruda conhece a consagração nacional e internacional e a sua acção política interna e externa não esmorece. Atacado e vilipendiado pela direita e pelos seus serventuários na intelectualidade chilena e estrangeira, a popularidade do escritor comunista cresce porém entre o povo. Os trabalhadores do Chile conhecem-no como «o Poeta», vão ao seu encontro e descobrem, na sua voz, a expressão de aspirações ancestrais de emancipação e justiça social, num país marcado por desigualdades gritantes, pela pobreza, pela vergonhosa cedência dos recursos naturais a grandes empresas estrangeiras e pela submissão das políticas económicas aos interesses americanos. Por isso, em 1969, é proclamado pelo PC candidato à Presidência da República do Chile. Para que Salvador Allende possa reunir todos os votos da esquerda, Neruda renuncia à sua candidatura e envolve-se activamente na campanha eleitoral da Unidade Popular que resultará vitoriosa, em Setembro de 1970.
Os dois anos seguintes são de intensa actividade diplomática em Paris, como embaixador do Chile, defendendo os interesses do seu país contra os embargos ao cobre chileno entretanto nacionalizado e contra as campanhas de intoxicação da opinião pública montadas nos Estados Unidos e na Europa para desacreditar o processo revolucionário no Chile. Em 1971, a consagração mundial da obra de Neruda é confirmada pela atribuição do Prémio Nobel de Literatura, mas no ano seguinte ver-se-á forçado a renunciar ao cargo de embaixador, uma vez conhecida a doença que o minava.
Em 11 de Setembro de 1973, o derrube do Governo da Unidade Popular e a morte do seu amigo Allende provocam-lhe um tremendo abalo e abreviam-lhe a vida. Contudo, antes do golpe militar comandado por Pinochet, ainda tem tempo de publicar Incitação ao Nixonicídio e Louvor da Revolução Chilena, ciente dos atentados e conspirações contra a independência da sua pátria perpetrados pela administração norte-americana, a CIA e os seus aliados na burguesia, no exército e nos partidos de direita chilenos: «Nixon (…) interveio num bloqueio económico que pretende isolar e aniquilar a revolução chilena. Nesta actividade usa diferentes executores, alguns desmascarados como a venenosa rede de espiões da ITT, e outros, fingidos, encobertos e ramificados entre os fascistas da oposição chilena contra o Chile. » 8
Em 23 de Setembro, morre Pablo Neruda em Santiago, menos de duas semanas após o golpe fascista apoiado pela administração norte-americana.

Uma voz e um exemplo

Hoje, como ontem, na América Latina e noutras regiões do mundo, as vozes dos povos, aliadas às de muitos escritores e artistas, continuam a erguer-se como a do poeta da Isla Negra contra o imperialismo de Washington, pelo direito à independência e à paz, à justiça social e ao bem-estar. Ao longo do século XX, a poesia de Neruda constituiu uma das expressões artísticas mais nobres desse combate. Com uma obra muito vasta, é sem dúvida um dos poetas de língua hispânica mais traduzidos para outros idiomas, designadamente o português 9, tendo o seu trabalho poético conhecido diversas fases. Começou por ser permeável a uma certa disforia de raiz romântica, ao simbolismo e depois às vanguardas do início do século XX (para tal contribuiu o convívio com a chamada Geração de 27, em Espanha, e com os surrealistas franceses), sem deixar de incorporar elementos decorrentes da passagem pela Ásia. Desde sempre, porém, a escrita de Neruda evidenciou uma individualidade e energia próprias que se foram matizando, ou mesmo sofrendo alterações significativas, de livro para livro, numa oscilação entre «complexidade» e aparente «simplicidade», extensão e contenção, marcada quase sempre pela euforia imagética e por uma ousadia surpreendente no plano metafórico. Neruda – que amou muitas mulheres – cantou como poucos a paixão e o erotismo, a dignidade e a beleza femininas. E tanto o lirismo sofrido de Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada (1924) como o canto das coisas elementares (nos dois volumes das Odes Elementares, 1954 e 1956) ou o registo épico do Canto Geral encontram o seu justo complemento na exaltação da dignidade e do trabalho humanos e da luta secular dos povos pela emancipação. Sem nunca resvalar para o panfletarismo, a escrita de Neruda foi sempre afirmação da nobreza dúctil da palavra e do seu poder de representação e transfiguração do real. Fascinado pela flora e fauna marinhas e terrestres, ecologista quando ainda não se falava em ecologia, cantou a Natureza e o mar que banha a «sua» Isla Negra (onde fez construir uma casa que se tornaria mítica). Personalidade cativante, mesmo nas suas contradições, mas acima de tudo poeta da alegria de viver, amar e lutar por um mundo diferente, Neruda é pois uma voz e um exemplo para o nosso tempo.
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Notas

1 Preferi a versão deste extracto proposta por José Bento (em P. Neruda. Antologia. Lisboa: Relógio d’Água, 1998, pp. 7-8) a que acrescentei a linha final (v. tradução de Arsénio Mota de P. Neruda. Confesso que Vivi: Memórias. 2ª ed., Mem Martins: Europa-América, 1976, pp. 167-8).
2 Os poemas iniciais encontramo-los em Cadernos de Temuco. Porto: Campo das Letras, 2004.
3 Confesso que Vivi, ed. cit., p. 11.
4 Cit. por Albano Martins na «Apresentação» de Canto Geral. Porto: Campo das Letras, 1998, pp. 9-10.
5 Confesso que Vivi, ed. cit., pp. 163-4.
6 Canto Geral (trad. de Albano Martins), ed. cit., pp. 586-7.
7 Leiam-se as traduções de Albano Martins, publicadas no Porto pela Campo das Letras, respectivamente em 1996 e 2004.
8 Cit. em P. Neruda. Antologia, ed. cit., p. 23.
9 Algumas outras traduções, além das já citadas em notas anteriores: Incitamento ao Nixonicídio e Louvor da Revolução Chilena: O Testamento Político. Lisboa: Agência Portuguesa de Revistas, 1975; Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada. 7ª ed., Lisboa: Dom Quixote, 1977 (trad. de Fernando Assis Pacheco); Antologia Breve. 5ª ed., Lisboa: Dom Quixote, 1977 (trad. de F. Assis Pacheco); Plenos Poderes. 3ª ed., Lisboa: Dom Quixote, 1982 (trad. de Luís Pignatelli); Odes Elementares. 2ª ed., Lisboa: Dom Quixote, 1998 (trad. de L. Pignatelli); Uma Casa na Areia. Lisboa: Dom Quixote, 1998 (trad. de F. Assis Pacheco)

Dois poemas de Pablo Neruda

Soneto XLVIII

Dois amantes ditosos fazem um só pão,
uma só gota de luar na erva,
deixam, ao andar, duas sombras que se juntam,
deixam somente um sol vazio numa cama.

De todas as verdades escolheram o dia:
não se prenderam com fios mas com perfume,
e não despedaçam a paz nem as palavras.
A felicidade é uma torre transparente.

O ar, o vinho acompanham os dois amantes,
a noite oferece-lhes as suas pétalas felizes,
têm direito a todos os cravos.

Dois amantes ditosos não têm fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem,
são eternos como a natureza.

Pablo Neruda. Cem Sonetos de Amor (trad. de Albano Martins). Porto: Campo das Letras, 2004, p. 60

Ao meu Partido

Deste-me a fraternidade para com o que não conheço.
Acrescentaste à minha a força de todos os que vivem.
Deste-me outra vez a pátria como se nascesse de novo.
Deste-me a liberdade que o solitário não tem.
Ensinaste-me a acender a bondade, como um fogo.
Deste-me a rectidão de que a árvore necessita.
Ensinaste-me a ver a unidade e a diversidade dos homens.
Mostraste-me como a dor de um indivíduo morre com a vitória de todos.
Ensinaste-me a dormir nas camas duras dos meus irmãos.
Fizeste-me edificar sobre a realidade como sobre uma rocha.
Tornaste-me adversário do malvado e muro contra o frenético.
Fizeste-me ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Tornaste-me indestrutível, porque, graças a ti, não termino em mim mesmo.

Pablo Neruda. Canto Geral (trad. de Albano Martins). Campo das Letras, 1998, pp. 586-7.


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