• Aurélio Santos

Imemorial da posse
Esta tomada de posse pareceria inacreditável. Mas sucedeu, sábado à tarde. Com um empossado 1.º ministro a conter-se para não mostrar satisfação insuflada. Com um discurso de cómoda vassalagem, politicamente vazio, guardando para as entrevistas à comunicação social o pomposo anúncio de baixa do IRS - promessa logo posta em causa pelo novo titular das finanças, que substitui a cara azeda da sua antecessora por um compungido rolar de olhos, pondo em dúvida que as contas do reino comportem tal largueza. Talvez queira pôr as barbas de molho, com um chefe que deixa um buraco de 100 milhões de euros na Câmara de Lisboa.
A nova nomenclatura governamental, com a criança arrancada à família e remetida para anexo de um ministério, essa parece saída da idiossincrasia de um 1º a quem só não podemos atribuir um complexo de Édipo porque Sá Carneiro não era mulher.
E o presidente? Asseverou vigorosamente que nada teria a ver com a política governamental.
«São funções diferentes».
Evidentemente.
E assim, pilaticamente, lavou daí as suas mãos.
Fica pois este povo português durante dois anos entregue aos piratas. Sobre a terra e sobre o mar, este agora também sob comando do almirante Portas.
Ouvidos os discursos confesso que adormeci. Ao passar de duas horas, qual não é o meu espanto ao ver que a cerimónia do beija-mão continuava. Mais de três mil e quinhentas pessoas ali desfilaram, curvados na vénia e na homenagem a este governo – até ele cair, é claro.
Uma vez mais, como acontece na história da burguesia, por trás da farsa, esconde-se a tragédia.
Pela sua própria composição (e pela imposição das classes sociais a que está umbilicalmente ligado) este governo foi talhado para acelerar a mudança de regime que o capital tem vindo gradualmente a promover, a partir dos órgãos do poder «democraticamente» conquistados, muitas vezes com apoio ou assentimento de forças e pessoas eleitas com programas e compromissos da esquerda.
É nisto que importa reflectir quem queira contribuir para a necessária unidade dos que não aceitam a subversão da democracia e querem uma real alternativa na política portuguesa.
Não será tempo de «contra os canhões marchar, marchar»?


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